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"Sinto um fardo dentro de mim, pode retirá-lo?"

ALMAS À VENDA (Cold Souls)

EUA, França, 2009 – 101

Comédia / Drama / Ficção científica

Direção: Sophie Barthes

Roteiro: Sophie Barthes

Elenco: Paul Giamatti, David Strathairn, Dina Korzun, Emily Watson, Katheryn Winnick, Lauren Ambrose, Boris Kievsky

Por acaso se sente desconfortável, angustiado, deprimido, acha que está carregando um fardo gigantesco nas costas? Que tal ter a sua alma drenada? Mas será que essa é a solução? Paul Giamatti acha que sim.

Lutando para obter a essência do personagem da peça teatral Tio Vânia de Tchekov, o ator Paul Giamatti (Paul Giamatti) joga a culpa do peso do personagem em cima de sua vida e sua alma. Eis que encontra num artigo na revista New Yorker a resposta para seu tormento – um serviço que permite ter 95% (até porque se remover 100% a pessoa morre. Não é?!) de sua alma drenada e armazenada. Com isso suas preocupações e medos são aliviados e o que se sente é… Nada.

Sophie Barthes em seu trabalho de estréia como diretora e roteirista. Realiza cortes de idas e voltas – com divagações melancólicas de Milan Kundera e o território surrealista de Jorge Luis Borges – nas histórias de Paul e Nina (Dina Korzun), uma mulher russa, que funciona como uma “mula de alma” para um comerciante do mercado negro russo. Nina por sinal desempenha um papel fundamental e seu desfecho se não surpreendente pelo menos serve como reflexão sobre… Não vou falar, pois estragaria. Nos comentários haverá Spoilers sobre isso, portanto CUIDADO. Inicialmente, unidos apenas por meio da edição que alterna entre eles, Paul e Nina, eventualmente se encontram pessoalmente e há muito para admirar em suas cenas juntos, especialmente após a alma de Paul ser tragicamente desaparecida na Rússia.

Cold Souls me diverte em seus próprios termos, entregando ironia, sarcasmo e suspense como quando Giamatti descobre que sem sua própria alma ele é um terrível ator (ele ensaiando Tio Vânia é horrível!) ou quando ele reclama que sua alma tem o tamanho de grão de bico e a importância deste grão de bico quando se perde.

Mas quem melhor para interpretar Paul Giamatti se não próprio Giamatti? Por ter uma cara tragicômica, ele sabe tirar vantagem disso como se pode ver em seus papeis mais fundamentais como em Sideways e O Anti-Herói Americano. Aqui Giamatti interpreta a si mesmo – ou versões de si mesmo, não diferente de John Malkovich em “Quero ser John Malkovich”. Até por sinal Cold Souls explora algumas das mesmas questões sobre identidade, memória e realidade que muitas vezes sugere nos roteiros de Charlie Kaufman.

Filmado com tons suaves pelo talentoso cineasta Andrij Parekh (Half Nelson), Cold Souls adquire uma qualidade especial de sonho quando a história viaja para São Petersburgo, onde encontramos um Giamatti triste buscando reencontrar sua própria alma. Em contra partida ao inicio quando vemos um estranho reconhecê-lo na rua.

Agora me responda o que aconteceria se tratássemos a nossa “alma” como um sofá velho que você não quer se livrar, pois é demasiado pesado ou demasiado feio para mover? Que se nós pudéssemos trocar por algo mais agradável. Você trocaria? Venderia? O Bart vendeu a dele e não conseguir remar o barco!