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ILHA DO MEDO (Shutter Island)

EUA, 2010 – 138 min

Policial / Suspense

Direção: Martin Scorsese

Roteiro: Laeta Kalogridis, Dennis Lehane

Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine

Uma das formas de comprovar a genialidade de Martin Scorsese (se é que ainda existem dúvidas) é analisando a sua filmografia. Ao longo de três décadas de trabalho, Scorsese foi capaz de criar as suas próprias obras-primas nos mais variados gêneros. Em 1991, quando Martin Scorsese fez Cabo do Medo, ele soube dirigir um thriller ousado, que ainda tinha o sabor de suas obsessões. Um filme constante, tenso, quase Hitchcockiano (se torna ainda melhor quando assistimos novamente), nele tínhamos Robert De Niro na figura obscura e desagradável do sociopata Max Cady.

Trabalhando a partir de um best seller pulp gótico de Dennis Lehane (Sobre Meninos e Lobos e Gone, Baby Gone), Scorsese implanta uma história claustrofóbica, complicada que mistura o psicológico com o político, o trauma pessoal com angústia histórica. A paranóia da Guerra Fria, o Holocausto, a culpa católica, o debate de meados do século sobre o tratamento dos doentes mentais, flashbacks longos, alucinações vividamente coloridas – e uma grande reviravolta final que é menos do que totalmente convincente.

Estamos em 1954, o coração da Guerra Fria, com teorias de conspiração em cada esquina. Uma balsa emerge através da névoa. A buzina do navio da lugar as ameaçadoras notas graves da partitura supervisionada por Robbie Robertson. O navio se aproxima da ilha Shutter no porto de Boston, sede do Asilo Ashecliffe, uma instalação de segurança máxima federal para criminosos insanos. O agente federal Teddy Daniels (DiCaprio), está enjoado, os olhos vermelhos e o rosto molhado, falando consigo ele diz: “Controle-se Teddy!. Acompanhado de seu novo parceiro Chuck (Mark Ruffalo) eles se dirigem a instituição para investigar o misterioso desaparecimento de uma mulher (Emily Mortimer) que assassinou seus três filhos, que de alguma forma, “evaporou” de seu quarto monitorado 24 horas por dia. Os médicos, Cawley (Ben Kingsley) e Naehring (Max von Sydow), não parecem dispostos a fornecer informações sobre o que está acontecendo, e sua falta de ajuda desperta suspeitas em Teddy, onde nem tudo é o que parece ser.

Parece haver mais mistérios aqui, e Scorsese tem muito mais em sua mente que um recluso louco à solta. A Ameaça de bomba está sempre presente, as memórias dos campos de extermínio nazista e rumores de questionáveis experiências científicas por médicos do asilo estão circulando. Enquanto a questão central ganha força, como a chegada de um furacão, é a própria natureza da sanidade e insanidade.

De um ponto de vista estritamente narrativo, Ilha do Medo reflete o seu material de origem. Assim como no livro a força do filme é que nunca permite que o espectador se sinta confortável com o que ele está assistindo. Nós reconhecemos desde o início que algo está errado. Sem entrar em pormenores que possam enunciar muitos dos desvios da narrativa, posso dizer que Scorsese transmite a influência de um narrador não confiável sem revelar onde explicitamente a perspectiva diverge de uma visão objetiva dos acontecimentos, as linhas entre a fantasia e a realidade, por vezes, escurece tão fortemente que é fácil tornar-se ancorado na tentativa de distinguir entre o que é real e o que não é. Como resultado, nunca podemos confiar plenamente que estamos vendo. A posição da Ilha com relação ao seu período permite a Scorsese trabalhar de maneira eficaz. Ilha do Medo pede liberalmente um filme noir de horror convencional e é improvável que qualquer outro diretor teria feito da mesma maneira. O lugar é um personagem. A tempestade é um personagem. A música alta e estrondosa é um personagem.

O problema com o filme (na medida em que é um problema) é lidar melhor na atmosfera do que na coerência narrativa. A edição, iluminação e ângulos de câmera subjetiva deixam o espectador desorientado suficiente para se manter desorientado. Porém as fronteiras instáveis entre a realidade e a percepção das tragédias do personagem central tornam-se menos interessante conforme se avança ao longo da história. Você começa a suspeitar quase de imediato que muita dessa desorientação narrativa está trabalhando para manter-se imperceptível ao que ocorre. Elas começam (em flashback) com a sua reação ao campo de concentração em Dachau, aonde ele chega como um membro da força libertadora e continuam a um caso mais recente: a morte de sua amada esposa Dolores (Michelle Williams) em um incêndio. Ele é um homem torturado e assombrado, e essas coisas só começam a revelar os demônios que se agarram em sua alma. Observamos o caráter de uma distância a nunca simpatizar com ele. Reconhecemos a sua dor, mas não a experimentamos ao lado dele.

Mas Ilha do Medo vai além, se deleitando em tremer o chão sob os pés do espectador lembrando-se da capacidade inigualável do cinema de mexer com nossa cabeça. Ele brinca com as idéias de percepção, a conspiração e a realidade. Pense A Morte num Beijo, com suas enigmáticas (não só de modo enigmático) insinuações da Guerra Fria. Ou Sob o Domínio do Mal e sua história de assassinatos e lavagem cerebral. Ou, Coração Satânico, no assombrado choro de Mickey Rourke, no fútil clímax: “Eu sei quem eu sou!” Como aquele filme, Ilha do Medo é a história de um detetive torturado em busca de algo existencial que ele não quer encontrar.

Ilha do Medo é agradável e satisfatório, mas com a aproximação das revelações finais, os riscos diminuem vertiginosamente, e o sentido de que o filme inteiro foi uma invenção forçada e sem sentido começa a tomar forma. Há, naturalmente, quem vai resistir a essa conclusão, em parte por lealdade a Scorsese, um diretor a quem estamos inclinados a estender o benefício da dúvida. Mas neste caso, o equívoco, a incerteza, parece vir do próprio cineasta, que parece ter sido incapaz de localizar no filme algo em que se preocupar, além de qualquer interesse particular. Ele que, no passado, usou personagens cuja compreensão da realidade era instável – ou que teimosamente viveram em realidades de sua própria autoria – como veículos para a exploração psicológica e mesmo a crítica social. Mas a mente tanto de Teddy quanto ao mundo da Ilha Shutter são sistemas fechados e sem ar, iluminada com flashes de virtuosismo, mas sem calor especial, condenação ou finalidade. A Ilha do Medo está distante de estar entre as grandes obras de Scorsese e DiCaprio, que tornou-se o ator de Scorsese na era pós-DeNiro, tem outra performance forte e madura. Mas definitivamente Teddy Daniels está longe de se tornar um Max Cady.