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A PROPOSTA (The Proposition)

Austrália / EUA, 2005 – 104 min

Ação

Diretor: John Hillcoat

Roteiro: Nick Cave

Elenco: Guy Pearce, Ray Winstone, Richard Wilson, Danny Huston, Emily Watson, John Hurt, David Wenham, Tom Budge

Diz-se que a vingança é um prato servido frio. “A Proposta” mostra que, estendendo-se a metáfora, a vingança é mais doce que amarga. Corajoso a ponto de ser preocupante, “A Proposta” não examina o thriller de vingança como culminar de indignação, mas como uma vitória de Pirro desprovido de catarse. Na superfície, “A Proposta” pode ecoar os Westerns estratificados de Hollywood, mas o olhar e a sensação do filme são mais inquietantes do que qualquer coisa que John Ford ou Sergio Leone já trouxeram para a tela.

A Proposta” de John Hillcoat, a partir de um roteiro escrito por Nick Cave, interpreta-se como uma triste balada com muitos dos traços de pós-westerns americanos. Mas a história se desenrola contra o pano de fundo estéril no outback australiano de 1880, sem as maravilhas cênicas do Oeste americano. A partir dessa perspectiva achatada em sua maioria, é virtualmente impossível desenvolver qualquer tipo de fluxo épico cinético nesta fábula da justiça fronteiriça primitiva, busca de vingança, lealdades e deslealdades fraterna entre os irmãos envolvidos em crimes brutais. A maior parte do filme, no entanto, é filosoficamente mais meditativa que dramaticamente emocionante, aproximando-a do teatro absurdo que de suas origens.

O cenário é a época colonial de 1880 no outback Australiano. Em uma região abandonada por Deus em um momento de desapego de crenças e esperanças, as forças britânicas estão a travar duas campanhas, uma contra os povos indígenas e outra contra a gangue dos Irmãos Burns, procurados pelo brutal assassinato de uma família.

No centro de ambas as campanhas está o capitão Stanley (Ray Winstone), um soldado grisalho que captura dois dos irmãos Burns – o conflituoso Charlie (Guy Pearce) e o simplório e retardado Mikey (Richard Wilson) – em um tiroteio no início do filme. Mas o terceiro e o mais cruel dos irmãos ainda está foragido: Arthur (Danny Huston), o líder, “um monstro, uma abominação abortada por um terreno inóspito”, se você já leu Meridianos de Sangue, romance de Cormac McCarthy, (se não leu eu recomendo com muita força) certamente reconhecerá em Arthur a figura do Juiz, um caçador impiedoso que essencialmente quer matar qualquer um que pode, até que este realmente morra. Seu diálogo é peculiar e seu discurso é de um homem educado. Stanley atormentado pelas maldades e brutalidades infligidas por Arthur, oferece a Charlie uma proposta: Encontre Arthur e mate-o, ou Mikey será acoitado no Natal.

Capitão Stanley surge com Charlie como co-protagonista, e parte do absurdo da dialética da narrativa. O capitão da Inglaterra emigrou para a Austrália com sua esposa bem-nascida, Martha (Emily Watson), e está desesperadamente tentando impor a lei e ordem numa área invadida por rebeldes que se opuseram a qualquer idéia de ordem Inglesa. Os irmãos Burns são exemplos dos problemas étnicos e morais que o Capitão Stanley terá de enfrentar. Muitas das cenas domésticas são tingidas com passividade e sofrimento de suas tentativas desesperadas de transmitir a Martha a esperança e o desejo de que eles possam ser felizes juntos nas difíceis condições encontradas.

Mas “A Proposta” é um filme de estranhas dicotomias, não o da velha escola de mocinho contra bandido, mas um espectro mais rico, mais saturado que encontra poesia no coração dos assassinos.

O filme está repleto de sujeira. E não há água suficiente para reposição neste território que se mostra. Todo mundo é sujo. Quando os homens se reúnem nas ruas para assistir a uma flagelação, vemos centenas de moscas praguejando e circulando por suas roupas. A flagelação é tão brutal que está ao lado de “A Paixão de Cristo” em termos de violência visual, até o momento quando o flagelador torce o sangue de seu instrumento. É uma daquelas imagens que faria os amantes de gore vacilar.

Na trilha sonora, num tom arrastado e baixo, mostra uma combinação que traz um maior assombro a evocativa trilha sonora – composta por Cave e Warren Ellis – que não canso de ouvir. E, visualmente, a cinematografa de Benoit Delhomme que evocam do balanço entre o sujo ao sublime nas mudanças de cenas, duelando com o por do sol do deserto, com a mesma visão expansiva na carnificina. Mais chocante do que os quadros de violência é a sua delicadeza em um único tiro a um close-up nas mãos de uma mulher em uma banheira: Aproximamos-nos por de trás de seu ombro, vendo as gotas de água em sua pele, enquanto ela fala de um sonho onde embalava um bebê.

O diretor John Hillcoat, trabalhando a partir de um roteiro escrito por Nick Cave, fez um filme que você não consegue se afastar é tão cruel e inflexível, tão cheio de pathos e inocência ignorada, que é um registro das coisas que pedimos para nunca nos aconteça. Trata a violência com muita precisão. Não há romantismo deslocado aqui, apenas a realidade chocante da morte súbita e na flagelação fatigante, uma espécie de sadismo alegre. Ele torna o outback australiano uma paisagem sufocante, entupido de poeira, as moscas preenchem seu purgatório, enquanto Nick Cave apresenta um roteiro com uma moralidade torturada, imagens ensanguentadas e um final ambivalente. Os atores investem seus personagens com os detalhes humanos mais assustadores, porque eles dificilmente se parecem humanos. Em que lugar de Arthur Burns reside sua poesia? O que ele sente quando ele as cita?

As performances de Huston, Pearce e Winstone estão brilhantes como Arthur, Charlie e Capitão Stanley. Seus rostos servem como indicadores da luta moral, contra a fúria de uma paisagem implacável. A força “d’A Proposta” é a sua ambiguidade moral. Personagens que seriam mais heróicos em filmes convencionais mostram seus lados mais obscuros, e os bandidos de forma mais branda, sem suas sombras sinistras. Tudo se resume à sobrevivência e justiça. Em uma terra dura onde tantos estão lutando pela liderança, seria essa liderança um sonho inalcançável? E quando é que a vingança como forma de justiça se tornar a vingança como um meio de sobrevivência? “A Proposta” pode não responder a estas perguntas, mas ele se dirige a elas e deixa para o espectador tire suas conclusões. “A Proposta” acaba como a antítese da tradicional ópera dos cavalos, onde não há lugar para os cavalos correrem sem ser correr para lugar nenhum. E nós parecemos estar em um teatro, ouvindo os personagens de Samuel Beckett lamentando sua falta de sorte. Acontece que eu admiro toda esta desgraça e tristeza, que parece tão oportuna. O resultado é tão inquietante como convincente num filme de arte sensível atado com gore.