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DEIXA ELA ENTRAR (Låt den Rätte Komma In)

Suécia, 2007 – 110

Drama / Suspense

Direção: Tomas Alfredson

Roteiro: John Ajvide Lindqvist

Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar, Henrik Dahl, Karin Bergquist, Peter Carlberg

O mito dos vampiros sempre esteve presente no meio cultural, mas ultimamente este mito cresce vertiginosamente e poucos sãos os filmes que conseguem se sobressair dentro deste oceano. Dentre esses, poucos se comparam a “Deixa Ela Entrar“! É um dos meus filmes favoritos e um dos filmes de horror essenciais da década. É um dos melhores filmes de vampiros, junto de “Nosferatu” tanto o de F. W. Murnau quanto de Werner Herzog, “Quando Chega a Escuridão” da oscarizada Kathryn Bigelow e “Entrevista com o Vampiro” de Neil Jordan. Também é um romance extremamente cativante e um dos filmes que melhor trata sobre o comportamento pré-adolescente. Apesar de conter surtos de violência que são chocantes onde corpos são pendurados como suínos após o abate, corpos decapitados, um homem entorna ácido em seu próprio rosto e uma mulher explode em chamas, a um toque de romance melancólico. Imagine um diagrama de Venn, onde a angústia pré-púberes, o bullying sofrido na escola, os problemas do primeiro amor e a devoção e o fato de que sua recém amiga é na verdade uma vampira se converge. Embora muitos dos aspectos tradicionais do gênero estejam presentes e representados no filme de Tomas Alfredson, este é um filme de vampiros como nenhum outro. Assim como “O Labirinto do Fauno“, o horror não é o objetivo.

Deixa Ela Entrar” inicia em um subúrbio de Estocolmo, durante a década de 1980. Ele abre com o reflexo de Oskar (Kare Hedebrant) numa janela, ele procura por algo ou apenas está utilizando do reflexo de forma sobria. Ele pode lembrá-lo do menino em “O Silêncio” de Bergman, olhando para fora da janela do trem. Haverá muitas reflexões no filme, nem todos sobre espelhos e reflexos, mas esta não é uma daquelas histórias de vampiro que se arrasta para fora das cruzes e dos alhos. Oskar um menino, magro pálido e quieto, mostra todos os sinais de estar no caminho para se tornar um dos assassinos de Columbine. Ele é um solitário que é implacavelmente tiranizado na escola. Seus pais são divorciados, e lhe dão atenção apenas quando eles podem encaixá-lo em seus ocupados horários. O seu hobby é recortar artigos sobre os assassinatos do jornal local e colá-los em um livro. Este não é um comportamento normal, mesmo para um garoto socialmente desajeitado no limite da adolescência. Mas depois as coisas tomam um rumo edificante. Eli (Lina Leandersson), que juntamente com Hakan (Per Ragnar) seu pai ou protetor, se mudam para o apartamento ao lado de Oskar. Ela é um pouco mais reclusa. Apesar de aparentar a mesma idade de Oskar (por volta dos doze anos de idade), ela não freqüenta a mesma escola. Mantém as janelas vedadas por papelões como querendo esconder algo. No entanto, bastam dois encontros, para se tornarem amigos e, eventualmente, concordam em “namorar”. Eli incentiva Oskar a reagir e enfrentar os valentões que o atormenta na escola. Ela garante que se ele não tiver medo, eles vão recuar. A bondade demonstrada por Eli para Oskar esconde uma falha no seu caráter. Ela é um vampiro.

Deixa Ela Entrar” não é exatamente uma história de vampiros. Ao contrário, é um conto sobre a amizade e empatia que se desenvolve entre dois desajustados da sociedade. Também não é um romance melodramático exagerado. Existem elementos de uma história de amor florescente em “Deixa Ela Entrar’, mas eles são tentativos e desprovido de sexualidade explícita. Eli não é sedutora. Ela não está interessada em ter relações sexuais, e Oskar é muito tímido e inseguro como algo mais do que um rótulo para colocar em uma estreita amizade. Vistos objetivamente, nenhum personagem seria simpático, mas há tanto calor em seu relacionamento, estranho e não convencional que é difícil não sentir-se cativado em relação a eles.

Existem vários mitos no mundo dos vampiros e aqui a grande maioria está presente. Eli bebe sangue, não pode ser exposta à luz solar direta, tem a pele fria, pode voar e escalar paredes, e sua mordida pode matar ou infectar uma vítima. Não sabemos se uma estaca no coração vai acabar com ela ou se ela pode se transformar em um morcego – não há nenhuma oportunidade de testar esses mitos. Mas há uma regra em específico onde para um vampiro adentrar uma residência ele deve ser convidado pelo morador. Nenhum filme de vampiros anterior abordou este mito de forma tão rigorosa como “Deixa Ela Entrar” – que é tudo sobre o que acontece, para o bem ou para o mal, quando alguém de bom grado convida um vampiro para sua casa, sua confiança e sua vida. Ele também responde de forma surpreendente uma questão que tem sido deixada de lado deste aspecto da cultura do título do filme – do que acontece se você não convidá-lo e mesmo assim ele cruzar o limiar de qualquer maneira? Não é bonito, mas também não é algo que você tenha visto antes. De modo geral, ela é da “velha escola” de vampiros. Ao invés de ser apresentada como a encarnação da sexualidade proibida ou uma alma repleta de angústia existencial esmagada sob o peso da culpa, ela se assemelha a um animal caçado. Ela só tem doze anos de idade (pelo menos em termos físicos) e faz o que pode para sobreviver. Ela é solitária. Oskar é solitário. Eles fazem um casal perfeito, mas é claro que ele tem dúvidas sobre estar tão perto de alguém tão assustador.

Deixa Ela Entrar” do diretor Tomas Alfredson, baseado no romance de John Ajvide Lindqvist que também roteirizou o filme, é visualmente lírico. Ele utiliza de atitudes obscuras e divertidas para o pequeno mundo que ele formou com tanto cuidado, ele também leva a tristeza mórbida dos jovens personagens a sério. Ambos são dolorosamente sozinhos, e é comum o fato de sua solidão, em vez de suas circunstâncias extraordinárias que torna o filme mais do que a soma dos seus calafrios e técnica estimável. Kåre Hedebrant, com seus cabelos loiros e pele pálida, é uma escolha interessante para interpretar Oskar, e ele efetivamente faz com que o personagem pareça remoto, retirado, e um pouco assustador. Lina Leandersson é excelente, uma individua ao mesmo tempo misteriosa e atraente. Os maquiadores fizeram um excelente trabalho com sua aparência sempre mudando. Em algumas cenas, ela é doce e inocente. Em outros, uma criatura recém-nascidas de um pesadelo febril. Há sangue e gore, mas não é excessivo, Tomas Alfredson está mais interessado em tocar acordes emocionais do que na criação de momentos “boo!” (cujos não existem) ou camadas da atmosfera ao ponto em que é pesada e impenetrável. Isso não quer dizer que o filme não tenha um olhar específico – há escuridão, neve e gelo em escala depressiva – mas essas não são as principais razões para existir.

Devastador, edificante e desumano. Estas seriam as palavras para descrever este filme se colocado no gênero terror, pois não encontramos a alegria em meio ao clima gelado e depressivo da Suécia, porém a palavra que defino “Deixa Ela Entrar” é delicadeza. Assim como em “O Labirinto do Fauno” o objetivo não é transpor o horror e evidenciar as maldades, aqui temos o retrato de uma relação improvável de duas pessoas, uma devoção de amizade e fidelidade verdadeira, o que o torna mai crível que muito drama “realista” e muito mais belo que o visual de um crepúsculo no fim da tarde, o início do ciclo de uma lua nova, o escurecer, de um eclipse do sol (ou da lua) ou o amanhecer de um dia quente.

Spoilers

  • Eli a principio pode não ser uma menina, possivelmente ela seja um menino que foi dessexuado e vampirizado. Vemos a possível cicatriz desta operação em um flash extremamente rápido. Por isso quando ela diz para ele “Eu não sou uma menina.” Esta frase pode ter seu duplo sentido. O que vemos poderia vir a ser um romance homossexual e em nenhum momento nos importamos com isso.
  • O relacionamento e a aproximação de Eli e Oskar a meu ver refletem na substituição de do personagem de Hakan. Provavelmente ela(e) tenha feito o mesmo quando Hakan era jovem.