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“… Se Deus tencionasse interferir na degenerescência da humanidade já não o teria feito a essa altura? Lobos separam as crias fracas, homem. A que outra criatura caberia? E acaso a raça humana não é ainda mais predatória? É da natureza do mundo vicejar e florir e morrer mas nos negócios do homem não há definhamento e o zênite de sua expressão sinaliza o começo da noite, Seu espírito está exausto no auge de sua realização. Seu mediterrâneo é ao mesmo tempo seu escurecer e o ocaso de seu dia. Ele ama o jogo? Pois que aposte tudo. Isso que veem aqui, essas ruínas tão veberadas pelas tribos de selvagens, acham que voltarão a existir? Sempre. E novamente. Com outro povo, com outros filhos.” P 156

O escritor Cormac McCarthy é um dos meus autores preferidos, e “MERIDIANO DE SANGUE” ao lado de “OS IRMÃOS KARAMAZOV” é um dos melhores livros que já li. Também é um tapa na cara do leitor, uma afronta que nos pede para suportar a visão do Velho Oeste cheios de crânios humanos carbonizados, couro encharcado de sangue e corpos dos bebês mortos pendurados em árvores. Mas enquanto o quinto livro de Cormac McCarthy é de difícil assimilação, é ainda mais difícil de ignorar. Qualquer página do seu trabalho revela a sua originalidade, uma voz apaixonada dando igualmente a feiúra e lirismo. Como em todas as ficções de McCarthy, é lido como um poema em prosa. O livro é talvez a coisa mais violenta que já tenha lido e que tem pouco comentário direto sobre a violência. Em outras palavras, “MERIDIANO DE SANGUE” é um pesadelo. Ela não se encaixa no gênero de horror. Trata-se do horror.

McCarthy não oferece o horror que os filmes nos dão. O intuito não é o voyeurismo, tão pouco o livro tenta nos fazer “saltar” da cadeira com idas e vindas, voltas e reviravoltas e/ou monstros que aparecem do lado de fora de nossa janela. As pessoas gostam de ir ao cinema assistir a filmes de Terror para se sentirem momentaneamente assustadas, mas elas sabem e percebem que estão seguras em suas confortáveis cadeiras estofadas. Porém McCarthy em nenhum momento deixa o público se sentir seguro.

Este livro a meu ver é o mais importante da biografia de McCarthy, pois coloca em perspectiva a linguagem faulkneriana, não provoca a violência que atravessa suas obras anteriores, que eram freqüentemente vistas como exercícios de estilo ou de estudos do mal. “ MERIDIANO DE SANGUE” deixa claro que a todo o momento McCarthy nos pede para testemunhar o mal, não a fim de entendê-lo, mas para afirmar a sua realidade inexplicável, a sua linguagem elaborada inventa um mundo articulado entre solavancos reais e surreais.

Vagamente baseado em eventos históricos, “MERIDIANO DE SANGUE” segue um jovem sem nome apenas de 14 anos em fuga, chamado simplesmente de “o garoto”. Ele logo se une a um grupo de mercenários caçadores de índios que foram contratados por um governador mexicano para retornar escalpos dos Apaches por US$100 cada. Esses desajustados – inclui um ex-padre, um homem cujas iniciais de seu nome está tatuado na testa e um juiz, o misterioso e erudito chamado Holden. Sua crueldade e impiedade é temida até mesmo pelos seus companheiros de gangue. Mas também há algo fascinante sobre seu caráter. O juiz é uma figura com uma carência de conhecimento sobre muitas questões complexas, que vão da astronomia e da química, biologia e filosofia. Na veia de explorador, ele recolhe amostras da fauna e desenhos de aves que ele nunca viu antes. Quando questionado sobre isso, ele explica que tudo o que existe sem o seu consentimento existe sem a sua autorização – uma afronta que ele não vai sofrer. Ele disserta sobre a natureza do mundo e da guerra. O juiz é o profeta alto da guerra, ele afirma que, embora tenha caído em desuso, a guerra e a violência são os verdadeiros catalisadores do progresso, e a única maneira que um homem possa justificar sua existência. Se você estiver familiarizado com o trabalho de McCarthy, ou com os filmes dos Irmãos Coen, o juiz Holden poderia perfeitamente ser avô de Anton Chigurh, de “ONDE OS VELHOS NÃO TÊM VEZ“.

O juiz sorriu. Os homens nasceram para os jogos. Nada mais. Qualquer criança sabe que brincar é mais nobre que trabalhar. Sabe também que o valor ou mérito de um jogo não é inerente ao jogo em si, mas antes ao valor do que está em risco. Jogos de azar exigem uma aposta para significar alguma coisa. Jogos esportivos envolvem a habilidade e força dos oponentes e a humilhação da derrota e o orgulho da vitória são em si mesmos aposta suficiente pois estão indissociavelmente ligados ao valor dos envolvidos e os definem. Mas seja qual for a prova, se de sorte ou valor, todo jogo aspira à condição de guerra pois nesse caso o que se aposta suprime tudo, jogo, jogadores, tudo.” p 261

Ler “MERIDIANO DE SANGUE” é como tentar decifrar o código de uma história estranha e sangrenta do mundo. O romance é demasiado violento, registrando massacres, escalpelamento e execuções. Considerando que os outros romances ocidentais são rápidos a glorificam a violência, os personagens McCarthy pregam um evangelho da violência enquanto cenas de brutalidade argumentam de forma convincente para a paz. As descrições são grotescas e atenuadas por cenas que poderiam parar em uma tela de cinema. Os índios passam pelo livro como figurantes num filme de Fellini. O Garoto é uma paródia levemente lapidada dos filmes de westerns B. – “Olhando para uma cabeça decepada, ele cuspiu e limpou a boca. – Ele não é um parente para mim, disse ele.” – Os detalhes horripilantes ficam em nossas mentes, como elementos surreais. Esse desequilíbrio é um problema, para McCarthy a ênfase não está na violência, mas nas reações dos personagens com ela. McCarthy não faz nenhum esforço para condenar nem comemorar a violência. É um fato da vida, um acontecimento do período de tempo. A quadrilha age violentamente como se fosse seu dever. Eles são humanos e como tal a violência está em seu ser.

MERIDIANO DE SANGUE” é muitas coisas, mas certamente não é uma leitura fácil. Além de possuir um vocabulário incrivelmente imenso, onde a ajuda de um dicionário se faz necessário algumas vezes. Numa primeira leitura a impressão serão as inesquecíveis cenas de violência, uma segunda leitura e estudo mais aprofundado deve revelar a verdadeira arte, a complexidade e o brilho com que “MERIDIANO DE SANGUE” foi escrito. Esta é uma leitura obrigatória tanto para pessoas com apreciação da literatura moderna americana quanto para apreciadores de uma bela história.

“Imaginem dois homens jogando cartas sem outra coisa para apostar além de suas vidas. Quem já não ouviu falar de algo assim? A virada de uma carta para esse jogador o universo inteiro avançou laboriosamente em todo seu fragor para chegar a esse momento que dirá se ele vai morrer na mão daquele homem ou se aquele homem morrerá na sua. Que confirmação mais definitiva do valor de um homem pode haver que essa? Essa intensificação do jogo a sua condição suprema não admite qualquer discução relativa à idéia de destino. A seleção de um homem em detrimento de outro é uma preferência absoluta e irrevogável e é um estúpido genuíno aquele capaz de supor uma decisão assim tão profunda sem um agente ou significação, uma coisa ou outra. Em tais disputas em que o que está em jogo é a aniquilação do derrotado as decisões são cristalinas. Esse homem segurando esse arranjo particular de cartas em sua mão é por isso removido da existência. Essa é a natureza da guerra, cuja aposta é ao mesmo tempo o jogo e a autoridade e a justificação. Vista dessa forma, a guerra é a forma mais legítima de divinação. Significa por à prova a vontade de um individuo e a vontade de outro no contexto dessa vontade mais ampla que, ao ligar as deles, é por conseguinte forçada a selecionar. A guerra é o jogo supremo porque a guerra é em última instância um forçar da unidade da existência. A guerra é Deus.” p 261

MERIDIANO DE SANGUE

Autor: MCCARTHY, CORMAC

Editora: ALFAGUARA BRASIL

Brochura

Livro com 352 páginas.