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HARRY POTTER E AS RELÍQUIAS DA MORTE: PARTE 1 (Harry Potter and the Deathly Hallows: Part 1)

EUA / Inglaterra, 2010 – 146 min

Drama / Fantasia / Suspense

Direção: David Yates

Roteiro: Steve Kloves

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Ralph Fiennes, Helena Bonham Carter, Bill Nighy, Richard Griffiths, Harry Melling, Julie Walters, Bonnie Wright, Fiona Shaw, Alan Rickman, Carolyn Pickles, Toby Jones, Robbie Coltrane, Brendan Gleeson, James Phelps, Oliver Phelps, Mark Williams, George Harris, Andy Linden, Mundungus Fletcher, Domhnall Gleeson, Clémence Poésy, Natalia Tena, Evanna Lynch, Rhys Ifans, Matthew Lewis, David Thewlis, John Hurt

Harry, Hermione e Ron cresceram. Seus rostos inocentes e angelicais dão lugar ao medo, repugnância, desgraça e melancolia. Longe de Hogwarts e mais perto de seu confronto final contra o maligno Lorde Voldemort, a saga ‘Harry Potter’, depois de nove anos nos cinemas, inicia sua conclusão com “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1”. Tal como “O Império Contra-Ataca” e “O Senhor dos Anéis: As Duas Torres”, “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” serve como uma ponte para o derradeiro final desta saga. Em outras palavras: A espera pode ser frustrante. Mas não é!

Neste capítulo captado sob uma sombria e assustadora coloração, Voldemort está à caça de Harry, e enviou seus servos para capturá-lo vivo para que ele mesmo possa matá-lo. Enquanto isso, Harry, Hermione e Ron devem procurar e destruir as Horcruxes – recipientes que armazenam pedaços da alma de Voldemort. Mas essa busca é mais perigosa do que nunca, uma vez que os Comensais da Morte de Voldemort assumiram o Ministério da Magia, deixando Harry com menos proteção. Logo os três amigos são lançados para fora do casulo protetor da Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts, em um sombrio, adulto e perigoso mundo que testa a independência que eles há muito têm se esforçado em obter, mas que nem sempre foi permitido pelos olhos não muito benevolentes de seus professores. As brincadeiras de crianças são deixadas de lado – desta vez não há quadribol, não há uniformes escolares ou quaisquer brincadeiras em sala de aula – as supervisões de um adulto desapareceram. Albus Dumbledore está morto e apesar de Hagrid (Robbie Coltrane) e Alastor Olho-Tonto Moody (Brendan Gleeson) oferecerem alguma ajuda no começo, Harry e seus companheiros devem confiar na bondade de elfos domésticos, em suas próprias habilidades mágicas e acima de tudo um nos outros.

Isso nem sempre é tão fácil e Yates e Kloves souberam lidar com tudo isso muito bem, fazendo um bom trabalho ao capturar a paranóia de uma perseguição constante, a tristeza de estar se separado da família e dos amigos – e do peso opressivo de saber que o destino de ambos os mundos depende deles.

O diretor David Yates volta para comandar o seu terceiro filme na franquia e por que não dizer o capítulo final da saga do pequeno bruxo. Ele cria um clima tenso, sombrio e angustiante para nossos protagonistas. Pontuados pela bela fotografia de Eduardo Serra (indicado ao Oscar por “Moça com Brinco de Pérolas”) ao mostrar montanhas com horizontes sem fins, florestas fechadas, afastadas e geladas além de praias desertas cheias de maus presságios. Serra, que não havia trabalhado em nenhum filme da série anteriormente, aqui traz um estilo diferente e malicioso, mas ainda assim se mantêm coerente com o mundo que nos foi mostrado até então.

A decisão de não lançar o filme em 3D é muito devido ao escurecimento das imagens que ocorre com o resultado do processo, logo teria sido impossível discernir detalhes de tão rico em sombras e escuridão que são muitas das cenas do filme, no entanto, foi uma decisão extremamente sábia, dado que muitas das cenas não necessitam de uma “terceira dimensão” para aumentar seu impacto. A animação de bonecos de sombra, por exemplo, que é usada para explicar as “Relíquias da Morte” é outra jogada inteligente, que acrescenta mistério a trama. A trilha sonora criada por Alexandre Desplat a meu ver é a melhor até o momento, construindo uma assombrosa e assustadora atmosfera sonora. O roteirista Steve Kloves faz um trabalho magistral ao dividir o sétimo e último livro em uma notável e coesa primeira parte de dois filmes.

Mas o interessante na série é o quanto nos preocupamos com os personagens principais, por terem gasto metade de suas vidas nestes personagens, e suas interações um com o outro durante esse tempo, parece ter deixado as três estrelas mais confortáveis e mais críveis do que nunca em seus papeis. Radcliffe tem se mantido sólido já algum tempo, Rupert Grint como Ron Weasley demonstra que o seu desempenho está ainda mais confiante, porém, recai sobre Emma Watson como Hermione Granger o trabalho mais pesado, em momentos como em que ela deve apagar as memórias de sua família para protegê-los ou em uma cena que não está no livro, ela e Radcliffe conseguem refletir toda a dor e melancolia que eles estão passando com uma dança (muito estranha por sinal).

Mas como de costume nossos três protagonistas não estão sozinhos e como de costume eles contam com um elenco de apoio no mínimo excelente. Ralph “Voldemort” Fiennes nunca se pareceu tão semelhante a Hitler, com sua campanha implacável para destruir qualquer um que não seja um bruxo puro. Veja como ele sorri delicadamente ao convocar que sua cobra gigante (essa frase ficou no mínimo estranha) devore uma das professoras de Hogwarts que ele torturou e matou pelo crime de ensinar a tolerância e o entendimento do mundo dos trouxas. Helena Bonham Carter como Bellatrix Lestrange está mais desequilibrada e assustadora do que nunca e é claro, Alan Rickman como Severus Snape. Além das adições de Bill Nighy como um funcionário do governo e Rhys Ifans como Xenophilius Lovegood pai de Luna Lovegood (Evanna Lynch). Outros personagens que anteriormente tiveram maior expressividade na série aqui aparecem só como complemento de história, por exemplo, Imelda Staunton a eterna Dolores Umbridge.

Embora ainda haja mais um filme por vir, este consegue ser um excelente trampolim e uma experiência satisfatória. “Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1” é uma bordoada emocional, capaz de fazer rir, sentir, chorar e encontrar pontos para deixar seus expectadores no mínimo ansiosos para a última rodada. A tristeza pode muito bem ser uma premonição do fim iminente de um longo e, na maioria das vezes, agradável relacionamento.