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TRON: O LEGADO (Tron Legacy)

EUA, 2010 – 125 min.

Ficção científica

Direção: Joseph Kosinski

Roteiro: Edward Kitsis, Adam Horowitz

Elenco: Jeff Bridges, Garrett Hedlund, Olivia Wilde, Bruce Boxleitner, James Frain, Beau Garrett, Michael Sheen, Anis Cheurfa, Serinda Swan, Yaya DaCosta, Elizabeth Mathis, Kis Yurij, Conrad Coates, Daft Punk

Em 1999, assisti a um filme que revolucionou a ficção cientifica para este que vos escreve. O nome deste filme foi ‘Matrix‘. Mas se vou falar de ‘TRON: O Legado‘ por que começo escrevendo sobre ‘Matrix‘? Pelo simples fato que após assistir ‘Matrix‘, vim a conhecer o cultuado clássico 1982 ‘TRON‘, que foi o predecessor do cinema digital. O filme estrelado por Jeff Bridges como um designer de videogames sugado para um mundo eletrônico (uma bela metáfora para uma indústria que freqüentemente coloca a tecnológicas acima da arte), foi de arregalar os olhos, com tamanha beleza em meio a uma história lenta, interessante e por que não, revolucionaria. O apelo visual, numa incandescente realidade alternativa de cores fosforescentes geralmente encontradas no fundo do mar ou com a ajuda de uma luz negra – apontou para um bravo mundo novo. Mas, infelizmente, o público não comprou, em grande parte, a idéia desse mundo, e no cinema definhou nas bilheterias, mas acabou tornando-se um clássico cult. Então eles tiveram 28 anos para preparar uma sequência, e este era o melhor que eles poderiam oferecer?

Não que ‘TRON: O Legado‘ seja um completo fracasso. Porém, é um simples filme de ficção científica. A narrativa pode ser mais forte do que a produção de 1982, mas, exceto por alguma alusão a Frankenstein (que é menos óbvios do que os acenos a Star Wars), não há algo de muito interessante acontecendo por aqui. O filme é legal, as seqüências de ação são eficientes, mas, ironicamente, este ‘TRON‘ se sente mais como um jogo de vídeo que seu antecessor.

O culto de ‘TRON‘ é quase tão grande que você poderia acusar ‘TRON: O Legado‘ de ser uma tentativa cínica de arrecadar dinheiro com a franquia. (O primeiro ‘TRON‘ foi um grande embaraço para a Disney; tanto que é difícil se não, impossível de se encontrar o DVD). Dito isso, o estúdio teve muito tempo para refletir seu erro, e ‘TRON: O Legado‘, ao contrário de seu antecessor, realmente traz alguma novidade. É um mais elegante, mais preciso, com um visual muito mais inebriante.

O primeiro ‘TRON‘, termina depois de Kevin, ter vencido um programa de computador (que parecia uma estátua de néon Ilha de Páscoa) e reassumir o controle da ENCON, a empresa de alta tecnologia que ele ajudou a construir. Este novo filme começa em 1989, com Kevin (rejuvenescido digitalmente, Jeff Bridges) colocando seu filho, Sam (Owen Best), na cama, o quarto de Sam é adornado com brinquedos e referencias a ‘TRON‘. Seguindo com a tradição Disney de separar violentamente os pais das crianças, Kevin logo desaparece, deixando Sam órfão (mamãe já havia morrido) e herdeiro da ENCOM. Assim como ocorre com o filhote de ‘O Rei Leão‘.

Dirigido pelo estreante Joseph Kosinski, a sequência em grande parte é centrada no adulto Sam (Garrett Hedlund), como ele a contragosto e em seguida com entusiasmo segue os passos do pai paralelo ao universo dele. Sam geralmente evita o escritório e vive em um contêiner a beira-mar com um cão e uma motocicleta. Mais uma vez, ENCOM caiu em mãos erradas. (Estranho com o que acontece com as empresas.) Mas, depois que o amigo e sócio de Kevin, Alan (Bruce Boxleitner) recebe um misterioso bipe, Sam se prontifica a buscar o pai. Como a maioria dos heróis relutante, ele rapidamente aceita sua missão, caindo no buraco do coelho eletrônico e desembarca no mesmo (um pouco diferente) mundo computadorizado que Kevin desapareceu.

O enredo de ‘TRON: O Legado‘ peca na falta de ambição, os roteiristas Edward Kitsis e Adam Horowitz tentaram ir longe, mas o longe nesse caso é muito perto. Embora os pivôs da história sobre a busca de Sam por seu pai, a luta pelo poder entre Kevin e Clu indica que os autores, ambos veteranos da série de TV ‘Lost’, estavam interessados em criar um mundo mitologicamente computadorizado no qual os usuários (humanos) criadores dos programas invertam os papéis, uma vez realizados por “deuses” e homens. Recorrendo ao clichê banal do ditador maluco procurando o poder para eliminar seu inimigo solitário e encontrar novos territórios para conquistar. Flynn, sobrecarregado com a responsabilidade de ter programado “O ditador maluco” Clu, com a única necessidade de criar a perfeição, tornou-se o recluso-Zen “Dude Wan Kenobi” do ciberespaço. Os personagens secundários como a belíssima Quorra willowy (minha 2ª Musa-Mor Olivia Wilde) ou o andrógino Zuse (Michael Sheen), são personagens sem muito carisma e desinteressantes. O fim do filme segue a trajetória esperada, com o grande último confronto como se poderia prever.

Do ponto de vista visual, O grande atrativo da sequencia, é claro, é a renovação do cenário, agora chamada de “Grade” e equipado com 3D. Embora a nova “Tronville” tenha suas atrações, as cores vibrantes caleidoscópicas e os visuais do primeiro filme foram substituídos por uma paleta preta, azul, laranja e amarelo. Pode-se dizer que ‘TRON: O Legado‘ faz uso decente do 3D, embora seja significativamente menos imersivo do que em ‘Avatar’. Pelo menos, as cenas em 3D foram filmadas em 3D e não convertidas. As imagens são escuras, mostrando como o ciberespaço se apresenta como um lugar sombrio (não há sol). Para a maioria, o 3D é sutil o suficiente para ser desnecessário. As cenas do mundo real no início e no final foram filmadas (e são apresentados) em 2D, para criar um contraste com as sequências do ciberespaço, que, além de ser em 3D, raramente mostram muito mais que cores além do preto, branco e vermelho.

O “olhar” do ciberespaço mudou dramaticamente desde ‘TRON’, e mostra a influência de como a realidade virtual evoluiu em produções como ‘Cidade das Sombras’ e ‘Matrix‘. Há várias homenagens ao original, incluindo as motos fechadas que deixam rastros por trás delas e os discos que contem dados sobre a vida de cada programa, podem ser jogados em adversários para “desintegrá-los”. As melhorias gráficas são evidentes em ‘TRON: O Legado‘ faz-se parecer mais com um parente distante do original ‘TRON‘ que um descendente direto. Ainda assim, mesmo que ele não seja como seu antecessor, ‘TRON: O Legado’ é mais “fácil” de se absorver.

TRON: O Legado‘ demonstra mais uma vez que os filmes podem ser incubadoras de avanços tecnológicos e emocionantes efeitos visuais – novas câmeras, novo 3D e técnicas de animação -, acabam deixando a nossa necessidade de narrativa insatisfeita. Sim, o filme parece muito legal. Mas o personagem mais interessante não é um personagem em tudo. É a trilha sonora original composta pela dupla de música eletrônica Daft Punk. Com a exceção de duas canções pop de 1980, a trilha sonora é quase 100 minutos de sinfonia eletrônica.

Isso nos leva a uma contradição fundamental no coração do ‘TRON: O Legado’ (ou, no caso, ‘TRON‘). Sonoramente, visual e conceitualmente, é um mundo repleto de imaginação. Tão ricamente imaginado, na verdade, que é fácil ver por que os jogadores iriam se apaixonar pela idéia. Ela cumpre a fantasia de “fuga” do usuário ao digitar o que apenas pode ser experimentado a partir do exterior, com um controle de jogo. De certa forma, ‘TRON: O Legado’ parece um artefato tentando homenagear o passado. O filme chega a uma época povoada por uma ou mais gerações que passaram grande parte de seus dias obcecados por jogos de videogame cada vez mais sofisticados e desafios tão bem elaborados quanto labirintos gigantes. Estes são os mestres do universo, no qual ‘TRON: O Legado’ acaba por ser apenas um jogador de nível Easy.

Uma das razões do original ‘TRON‘ ter sido recebido com muita hostilidade, na sua forma sintetizada, por representar um admirável mundo novo não apenas do espaço digital, mas de filmes consumidos por seus próprios efeitos. Na época, este era um futuro onde muitas pessoas não queriam ver Hollywood abraçada. Mas, claro, o futuro venceu. E esse pode ser o verdadeiro “legado” de TRON.