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INCONTROLÁVEL (Unstoppable)

EUA, 2010 – 98 min.

Ação

Direção: Tony Scott

Roteiro: Mark Bomback

Elenco: Denzel Washington, Chris Pine, Rosario Dawson, Ethan Suplee, Kevin Dunn, Jessy Schram, Kevin Corrigan, Lew Temple

Há uma simplicidade em “Incontrolável” que funciona, apesar de todos os seus clichês. Esta é a história de um trem desgovernado, sem um engenheiro no comando, acelerando em direção à uma cidade da Pensilvânia, carregando toneladas de explosivos e gases venenosos, destinada a descarrilar e explodir quando alcançar uma curva particularmente acentuada. Um drama familiar do cinema catástrofe que mostra porque a velha escola provavelmente nunca sairá de moda.

Assim como o trem, Scott começa de forma lenta e progressivamente acelera num ritmo crescente a tensão e a ação. As filmagens granuladas e as diversas exposições ampliam todas as edições rápidas aumentam a sensação de movimento incessante. O trem faz barulhos, grunhidos, ressoantes trepidações e nós estamos no meio de tudo isso – sobre os trilhos, entre as rodas, embaixo e em cima dos vagões.

Este é também é o segundo filme de Scott (após o “O Sequestro do Trem 123”) envolvendo um trem e o sexto em sua carreira com o ator Denzel Washington, aqui compartilhado a tela com a estrela de “Star Trek”, Chris Pine em uma locomotiva fora de controle. Mas, enquanto fazer continuamente o mesmo tipo de filme pode anestesiar alguns diretores, isso parece energizar Scott, que consegue construir e sustentar os diversos tipos tradicionais de tensão.

“Incontrolável” é “inspirado em fatos reais”, o que é uma declaração exata tecnicamente, embora tenha-se tomado consideráveis alterações para aumentar a tensão e tornar a situação mais cinematográfica. A base histórica para “Incontrolável” é 15 maio de 2001, num incidente em que um trem CSX não tripulado tornou-se “fugitivo”, num total de 66 quilômetros em Ohio, em menos de duas horas antes de ser parado de forma similar (embora menos dramático) ao que é retratado no filme. Muitos dos detalhes – como o trem acabou sem que ninguém a bordo, como a polícia reagiu e como os operadores do transporte ferroviário para minimizar as lesões e danos – refletem o que aconteceu no mundo real. Os personagens, porém, foram completamente inventados.

Scott conta a história a partir de vários pontos de vista. Will Colson (Chris Pine) é o novato e Frank Barnes (Denzel Washington) o veterano, e é aí que reside o núcleo do seu mútuo desprezo. Will não gosta de ser menosprezado por sua inexperiência, Frank está aborrecido porque a empresa está mudando o quadro de funcionários por trabalhadores inexperientes de baixa remuneração para substituir maquinistas como ele. Embora os dois estejam na fase do “se conhecer” do relacionamento, as coisas ruins estão acontecendo em outro lugar da linha principal: uma série de percalços e erros resulta em um trem a deixar a estação não tripulado e acelerar a uma velocidade alarmante. É a lei de Murphy atuando em velocidade vertiginosa, a única certeza é de que mais coisas vão dar errado, e essa é a essência da incerteza de suspense. No início, foi pensado que seria uma “montanha russa”, que poderia ser facilmente controlada. Porém, não demora muito, para a supervisora de tráfego, Connie Hooper (Rosario Dawson), perceber que o trem não está sob controle, está acelerando em direção a uma área densamente povoada no coração de Scranton, na Pensilvânia, com uma população de 750.000 habitantes – e em vários dos vagões estão cheios de produtos tóxicos e produtos químicos inflamáveis. No escritório corporativo da ferrovia, um executivo (Kevin Dunn) está preocupado principalmente com o custo que terá se perder o trem.

Sobrevoando os acontecimentos, helicópteros circulam, as emissoras de TV alimentam minuto a minuto o pavor dos telespectadores, que intercala com estilo de ação de Tony Scott. Isso lhe permite um caminho plausível para fornecer uma visão geral e narrar à ação, um dispositivo similar utilizado por seu irmão Ridley Scott para nos ajudar a acompanhar os acontecimentos em seu “Falcão Negro em Perigo” (2001). O olhar é limpo e quase clássico, moldado com cortes rápidos. A situação é explicada com cuidado para que fique claro que há mais em jogo do que a vida destes dois homens.

Embora, “Incontrolável” tenha uma idéia atraente, é de se observar uma paridade com a premissa de “Velocidade Máxima”, um roteiro que vai repercutir tão profundamente como os subwoofers, um filme de ação feito à moda antiga, o entusiasmo ao saudosismo à moda dos antigos efeitos especiais (ação ao vivo e o modelo de trabalho meticuloso reduz os truques gerados por computador a um mínimo invisível), uma fotografia ampla explora o exterior (em contraste com o claustrofóbico “O Sequestro do Trem 123”), e uma sensação constante da realidade, embora o espírito do filme leve a uma ação cada vez mais extravagante.

Trabalhando com colegas veteranos como desenhista de produção Chris Seagers e editor Chris Lebenzon (que divide o crédito com Robert Duffy), e novos companheiros de equipe como cineasta Ben Seresin, Scott adora encher a tela de movimento, seja lançando helicópteros, viaturas policiais com sirenes intermitentes. Mais do que isso, numa época em que as imagens em CGI são uma segunda natureza nos filmes, Scott prefere efeitos práticos.

Inteligentemente Scott mantém o comando e evita gastar tempo nos distraindo, mesmo que nos remeta as histórias passadas e as interações entre os personagens. Washington leva sua habitual firmeza e carisma, Pine mostra tanto humor quanto ousadia. Em meio a todo caos, os dois encontram tempo para conversar sobre suas esposas, problemas familiares e lamentações, enquanto se apressam para parar a grande locomotiva errante, mas pelo menos “Incontrolável” faz o esforço para completar seus personagens para que nos permita importar caso eles vivam ou morram. Ao longo do caminho, Rosario Dawson orienta-os e serve como a voz da razão, como supervisora de tráfego na sede que tenta manipular ao máximo tudo que está ao seu alcance para que o pior não aconteça. Dawson é forte, como uma mulher confiante em um mundo predominantemente masculino.

Foi-se o tempo em que filmes de ação como estes eram entretenimentos feitos com substância suficiente para manter os adultos atentos, elevar a frequência cardíaca e fazer as unhas serem consumidas pelos dentes. A ação envolvida em filmes antiquados de catástrofe como “Incontrolável” pode não ser o futuro da indústria do cinema, mas seria uma pena deixar que eles fossem esquecidos em seu passado histórico.