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CISNE NEGRO (Black Swan)

EUA, 2010 – 108 min

Drama / Suspense

Direção: Darren Aronofsky

Roteiro: Mark Heyman, Andres Heinz, John J. McLaughlin

Elenco: Natalie Portman, Mila Kunis, Winona Ryder, Vincent Cassel, Barbara Hershey, Benjamin Millepied

O que ninguém pode negar é que Darren Aronofsky é um grande diretor e as qualidades de seus filmes buscam evocar o extremo da mente humana, seja na faceta de um usuário de drogas, em um alucinado pela matemática ou a depressão de largar o esporte sem uma última grande luta. Nenhum detalhe da vida constantemente minuciosa do público lhe escapa. Cada momento de terror, cada sorriso vencedor, cada lágrima que cai quando ninguém olha, ou finge não olhar e da necessidade de ser bem-sucedido; em busca da perfeição. Entretanto, para estudar brilho, é preciso reconhecer a sombra. Ela pode não estar presente de forma definida e constante, mas está lá. Dois lados, duas facetas, luz e sombra, uma dualidade eterna representada no conto do Cisne Negro e, agora, subvertido por Aronofsky, numa visita incômoda ao lado mais escuro da consciência: aquele que não reconhece limite ou ameaças. E é na penumbra do palco, sempre solitário e opressivo, que o balé soturno de Natalie Portman se inicia em ‘Cisne Negro’ dando origem a um ciclo intenso, mas possivelmente segmentado demais, de trevas.

Nunca pensamos no balé, com seus movimentos graciosos e sensualidade intocável, como um esporte de sangue, mas na perspectiva de Aronofsky o argumento de que uma luta não pode ser muito distante de uma dança é equivocada. ‘Cisne Negro’ é apresentado como um thriller psicológico: a perspectiva do telespectador é a do personagem principal com sua sanidade está em dúvida. Como resultado, o filme e o senso de realidade são distorcidos. A fantasia, o pesadelo, a alucinação e o que é real, são caminhos prováveis que exijam múltiplos olhares e cuidadosas conjecturas. Aronofsky criou uma pequena obra – do tipo que os amantes do “estudo da mente” irão se deliciar, ‘Cisne Negro’ traz a metalinguagem apresentada por Christopher Nolan em ‘A Origem’ e Martin Scorcese em a ‘A Ilha do Medo’. Mas também conversa com seu público como o fez Quentin Tarantino em ‘Bastardos Inglórios’. Há duas forças maiores em conflito: a busca pela perfeição e o autoconhecimento. Seria simples, até mesmo prático, encarar essas duas motivações como elementos complementares e, se colocados na ordem [autoconhecimento e busca pela perfeição], como a trajetória natural e produtiva do processo de amadurecimento.

Preocupado com os desesperos, os desertos obscuros de nossos sonhos podem nos levar, Aronofsky tem vindo a desenvolver um vocabulário cinematográfico para mostrar suas ambições. ‘Cisne Negro‘ começa como um drama no backstage, mas acaba sendo uma meditação sobre a rivalidade nos bastidores, o ciúme artístico, uma grande obra de arte que reflete mais na vida das pessoas que na pratica, que neste caso é punido com excessos singularmente perversos. Nina Sayers (Natalie Portman) não quer apenas o papel principal na produção do balé de Tchaikovsky “O Lago dos Cisnes”. Você fica com a sensação de que ela preferiria morrer a perder. Este balé como nos bastidores da dança é cruel e pune tanto fisicamente quanto psicologicamente; os torturadores de Nina incluem um manipulador diretor artístico Thomas Leroy (Vincent Cassel), uma nova artista que ingressa na companhia de balé (Mila Kunis) ameaçando seu presente, a aposentadoria de uma dançarina (Winona Ryder) aponta para um futuro próximo e uma mãe (Barbara Hershey) que sufoca Nina ao quer que ela reviva seu passado, mantendo a criança existente em sua fantasiosa casa de bonecas adornando o quarto com babados rosa, enquanto ela está suando sangue no palco. Lutando pela perfeição imaculada – seu modo padrão adequado para dançar o balé do Cisne Branco – Nina é tragada num mundo caótico encarnando o Cisne Negro.

Isto soa um tanto preto e branco num papel, e nos momentos mais “calmos” de ‘Cisne Negro‘ tendem a sutileza do desaparecimento de Nina. Felizmente, Aronofsky não costuma operar seu plano de forma pratica. Ele quer visualizar Nina em seu estado mental frágil e fazer cintilar a sua descendência e ele consegue isso com muita frequência. O ‘Cisne Negro’ se preocupa com a imersão no desespero, a experiência imersiva impulsiona a narrativa e é esperto o suficiente para que a experiência do melodrama – a mãe exigente, os frequentes confrontos, o grande evento, a perseguição da concorrência – faça com que o público possa se agarrar.

Se ‘Cisne Negro’ tinha sido contada a partir de uma perspectiva neutra, não poderia ser tão diferente de algo na linha de ‘The Red Shoes’. No entanto, ao apresentar a ação de dentro da mente fraturada do personagem principal, o filme dialoga próximo com alguns dos primeiros trabalhos de Roman Polanski (especialmente ‘O Inquilino’ e ‘Repulsa ao Sexo’), mostrando os sinais da queda de Nina com dicas sutis e gradualmente nos puxando mais para o outro lado do espelho. Como em ‘Repulsa ao Sexo’, o som é fundamental. Em uma viagem de metrô a caminho do estúdio para os ensaios, os gritos e ruídos raspando o subsolo assumem um tom sobrenatural, tais sugestões se tornam menos subliminares conforme a história avança. Pequenos males físicos – uma unha quebrada, por exemplo – prenunciam distorções desagradáveis no corpo. Ainda que, ‘Cisne Negro‘ venha como um thriller psicológico, também contém elementos do melodrama escabroso de horror. E, apesar de não haver nudez, a sexualidade é latente no filme (o que inclui masturbação e um “relacionamento” lésbico – o dia que eu reclamar disso em um filme ainda mais com a Natalie Portman, minha musa nº 1, no elenco, me processe por falta de bom gosto.) encarando assim uma direção com leve teor erótico. Ainda assim, apesar das suas muitas personalidades, ‘Cisne Negro‘ é, na sua essência, muito mais um filme de arte.

Ele oferece pouco em termos de ação concreta ou uma exposição e, mesmo depois de assistir algumas vezes, questões sobre o que é real e o que não é permanecem. Teria sido fascinante ver um tratamento ao estilo ‘Rashomon’ para a história e compreender os eventos não só da perspectiva de Nina, mas também da de Leroy e Lily.

Embora Aronofsky tenha designado ‘Cisne Negro’ como uma “peça de companhia” para ‘O Lutador’, este recurso é muito mais ambíguo do que o filme anterior, que tratava com uma, ainda que triste realidade simples. A maneira com que ele brinca com as percepções do espectador, o cineasta não só referência o seu tratamento antidrogas, em ‘Réquiem para um Sonho‘, mas também na sua estréia, com ‘PI‘. Como ‘O Lutador’, isto é, em muitos aspectos parte do caráter que diferencia aqui é a falta de distanciamento e objetividade utilizados na representação de Nina e seu mundo. Há uma abundância de pistas que estamos vendo é muito íngreme. Lily, por exemplo, é representada de forma inconsistente – uma rival conivente, uma sedutora descarada, uma bailarina que trabalha com habilidade e paixão, mas tem falhas técnicas. Há cenas em que o espectador se sente que ele está observando a “verdadeira” Lily, mas na maioria das vezes é o que Nina faz parecer dela, e raramente é agradável.

O retrato de Nina exige amplitude, profundidade e emoção, e Portman nunca atinge um acorde errado. Ela nunca teve um personagem com caráter tão obcecado anteriormente, e nunca enfrentou um desafio físico tão exigente (ela esteve se preparado por volta de 10 meses). A maior parte das coreografias é executada por Natalie Portman e embora seja difícil dizer que ela está perfeita no filme (na vida real ela é perfeita), ela evidentemente é melhor do que meramente “credível”. Os outros atores são como parceiros de dança segurando ela no ar. Barbara Hershey fornece um desempenho perfeitamente calibrado como uma mãe cujo amor é real, cujas deficiências não são sinalizadas, cujo todo perfeccionismo foi centrado na criação de sua filha.

Mila Kunis exibe a capacidade de interpretar mais do que os papéis em comédias ou dramas leves que vem fazendo. Exigida pela abordagem narrativa de incorporar duas ou três personagens diferentes (por causa da maneira com que Lily é percebida), Kunis diferencia as personalidades, mantendo uma ligação entre elas. Seu desempenho existe na sombra de Portman, mas, em sua própria maneira, é impressionante. Enquanto isso, Vincent Cassel, está bem como Leroy, adicionando uma pitada de nervosismo obscuro à sua maliciosamente encantadora personalidade.

O olhar e a sensação de ‘Cisne Negro’, que capta a essência de uma grande produção de balé de Nova York, é um dos grandes sucessos de Aronofsky. Mas não é tudo verossimilhança – algo não alcançado apenas através de esforços incansáveis das atrizes, mas através do diretor de estudo de análogos da vida real. A fotografia é evocativa, com ângulos estranhos e fortes contrastes entre o preto e branco, bem como a incorporação de tomadas que seriam adequados em qualquer filme de terror. Muitas cenas têm uma sensação discordante, que é o que se poderia esperar de um filme que representa este ponto de vista.

Tal como acontece com ‘O Lutador’, o fim de ‘Cisne Negro’ está aberto à interpretação. Ao comparar os dois filmes – uma abordagem que Aronofsky convida – é fácil ver semelhanças entre os arcos dos personagens, mesmo que eles estejam em lados diferentes da escala de desempenho (sendo o balé a “arte elevada” e a luta livre “arte baixa”). No entanto, ‘O Lutador‘, como uma tragédia tradicional, evoca uma forte resposta emocional. Já ‘Cisne Negro’ não é menos violento, mas o método de contar histórias, paradoxalmente prende o espectador para além de Nina, oferecendo a intimidade de sua perspectiva. Filmes que distorcem sua compreensão são muitas vezes assim, investem mais na intriga intelectual do que a realização emocional. Assim, embora ‘Cisne Negro’ seja o movimento de imagem mais ambicioso, pode-se argumentar que ‘O Lutador’ é mais gratificante.

As cortinas se fecham, os holofotes se apagam e a busca de Nina pela perfeição permite que seu lado obscuro tome conta de sua vida. Seu desfecho é grandioso e apoteótico. Perfeito por suas próprias palavras, mas a chave está na principal fala de Cassel: “perfeição e técnica não supera necessidade a emoção”. Aronofsky leva o espectador a buscar a perfeição e deixa a emoção nas mãos de Natalie Portman, que permanece bela e verdadeira em meio aos seus devaneios fantasmagóricos.