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DEIXE-ME ENTRAR (Let Me In)

EUA, 2010 – 115 min.

Terror / Suspense / Drama

Diretor: Matt Reeves

Roteiro: Matt Reeves

Elenco: Kodi Smit-McPhee, Chloe Moretz, Richard Jenkins, Elias Koteas, Cara Buono, Sasha Barrese, Dylan Kenin, Dylan Minnette

Sou um grande fã do filme original, e há princípio, fui contra “Deixe-Me Entrar” (Let Me In), o remake americano do extraordinário filme de vampiros sueco “Deixe Ela Entrar” (Let the Right One In). Pois o original é perfeito por si só. Logo, Não havia desculpa ou necessidade para um remake, exceto talvez para o publico norte americano não precisar se esforçar em ler a legenda.

Porém, eu suportei esse sentimento, ainda mais sendo apaixonado pela versão original “Deixe Ela Entrar” dirigida magistralmente por Tomas Alfredson, na adaptação do romance de Ajvide Lindqvist John. Mas “Deixe-Me Entrar” dirigido por Matt Reeves, diretor do brilhante “Cloverfield – O Monstro” me conquistou. É um bom filme em si, não tão bom quanto à versão sueca, mas capturando o clima de escuridão e melancolia, que é a essência se não a arte assustadora por trás da versão de Alfredson, soube apresentar novos argumentos a trama.

O filme mudou-se da sombria e gélida Estocolmo na Suécia para o frio do inverno em Los Alamos no sudoeste americano, definindo como cenário o inicio dos anos 80. O auge da presidência de Ronald Reagan e os sucessos de Boy George nas rádios; a ausência de celulares e câmeras de segurança e a falta de tecnologia em auxilio da medicina. O conto ainda é centrado em Owen (Kodi Smit-McPhee), um garoto magro e quieto de 12 anos, que não tem muitos amigos, na verdade, não tem nenhum amigo, ele frequentemente sofre com os abusos de “bullying” na escola. Quando Abby (Chloe Moretz) se muda para o apartamento do lado junto com seu “pai” (Richard Jenkins), ele é naturalmente atraído por ela. Abby vive de pés descalços, e alega não sentir frio, ela é ainda mais excêntrica que ele. Apesar de sua afirmação de que eles não podem se tornar amigos, mesmo assim, o vinculo se forma. Eles se comunicam através da parede em comum entre os apartamentos através de código Morse. Ela lhe dá conselhos sobre como lidar com valentões. Ele convida-a para sua casa quando sua mãe não está por perto. O que reconhecemos muito antes de Owen é que Abby é um vampiro cuja “refeições” são fornecidas pelo senhor idoso que divide seu apartamento. Quando ele é incapaz de satisfazer suas necessidades, ela busca sozinha. Eles vivem em constante medo de ser apanhado e, quando Abby imprudentemente escolhe uma vítima entre os inquilinos de outro apartamento, ela aproxima um policial (Elias Koteas) que investiga uma série de assassinatos.

O filme é bastante semelhante no tom e na abordagem de “Deixe Ela Entrar“, e é claro que o diretor/roteirista americano, Matt Reeves, tem admiração pelo que o diretor/roteirista sueco, John Ajvide Lindqvist, fez no original. Reeves entende o que fez do primeiro filme ser eficaz, e faz aqui a trama funcionar novamente. Porém, aqui existem duas grandes diferenças, ambos os quais são projetadas para tornar o filme mais acessível a todos. Uma das ambigüidades do original, relativa às motivações do “pai”, foi esclarecido em “Deixe-Me Entrar“. Mais notável, porém, é a retirada de uma “WTF” que se tornou um dos aspectos mais discutidos em “Deixe Ela Entrar“. Não é só a falta da cena, mas assim as suas implicações. (Se você já assistiu “Deixe Ela Entrar“, você sabe do que estou falando. Se não, é irrelevante.)

Embora os fãs de “Deixe Ela Entrar” quase certamente iram ficar desapontados com as alterações introduzidas na narrativa, “Deixe-Me Entrar“, está bem acima da média dos atuais “filmes de vampiros” produzidos em Hollywood. Além disso, estes são sanguessugas “old school” que irrompem em chamas (ao invés de brilhar), quando expostos ao sol. Dentro de seus próprios termos, este filme possui um nível irresistivelmente sofisticado e raro para um filme de terror americano. Enquanto, “Deixe Ela Entrar” possui uma linha mais dramática para o gênero terror, o tom de “Deixe-me Entrar” é abertamente romântico, mas os elementos de horror estão presentes.

Um aspecto de “Deixe-Me Entrar“, que torna este filme único são os sentimentos subjacentes as diversas relações. Owen é um solitário cuja mãe literalmente sem rosto (Reeves encobre a atriz, de tal forma que a câmera não capta sua face, demonstrando vergonha ou descaso com o filho) é pouco mais que uma nota de rodapé em sua vida. Ele é atraído por Abby, porque ela demonstra interesse por ele e sua pergunta na tentativa de saber se eles podem “namorar” é uma indicação de como ele está desesperado para qualquer tipo de integração humana significativa. Por sua parte, ela está dividida entre Owen e seu “pai”. O homem mais velho com quem ela convive. Ainda existe carinho entre eles, mas o amor que os uniu há muito tempo acabou. O flerte entre Abby e Owen desperta o mesmo sentimento de um relacionamento extraconjugal. A novidade e a excitação do relacionamento em contraste com a desilusão rotineira que ela tem com o seu “pai”. Por sua parte, o “pai” vê o que está acontecendo e sabe que ele está sendo substituído. A dor da sua situação é evidente quando Abby recusa seu pedido para que ela pare de ver o menino. Não há sexo no filme, mas o que está no contexto não é difícil de compreender.

Reeves demonstra, além de filme de terror impressionante, uma sensibilidade delicada em captar a sagacidade. Grande parte da ação acontece na semi-escuridão, e Reeves e seu cinegrafista, Greig Fraser, arquitetam as imagens, usando um foco raso para transmitir o isolamento e a desorientação das vulnerabilidades das crianças. Michael Giacchino desliza sua orquestra num trabalho sonoro exuberante e melodramático.

As atuações são um dos pontos fortes em “Deixe-me Entrar“. Kodi Smit-McPhee, que interpretou o filho em “A Estrada“, é crível como um menino aprisionado por sentimentos e conflitos que ninguém da sua idade deveria ser obrigado a enfrentar. Apesar de “namorar” Abby, ele mostra a perfeita combinação de audácia e timidez, o medo que ele apresenta quando confrontado com as intimidações na escola, é real o suficiente para ser assombroso. Enquanto isso, Chloe Moretz, é assustadora e muito atraente como Abby (que era vista como uma andrógina em “Deixe Ela Entrar“), porém prevê uma interpretação que se desloca de um vampiro que aceitou o seu lugar na cadeia alimentar e o que isso significa para aqueles que estão ao seu redor. Sua vida é uma luta constante para sobreviver. Moretz mostra afeição genuína por Owen, nós não suspeitamos dela tentando usá-lo. Em um papel de apoio, Richard Jenkins é tão bom como sempre, emprestando solidariedade e dignidade a um papel difícil. Nós não aprendemos muito sobre seu personagem, mas alguns olhares em seus olhos e um vislumbre de uma fotografia em preto e branco nos diz tudo que precisamos saber.

Mas enquanto a versão sueca, que em nenhum momento se negou a explorar ao máximo das cenas despojado nenhuma falta de autenticidade, mesmo nos momentos selvagens. Este se entrega as desnecessárias “melhorias” do CGI, sem nenhuma necessidade, na verdade, os efeitos especiais, não funcionam bem. Eles são mais extravagantes do que eficaz. Mas a “chicana visual” é apenas um aspecto menor do que “Deixe-me Entrar” tem para oferecer e, na maioria das vezes, realiza o que se propõe a fazer. Há elementos de horror em evidência – ataques inconsequentes; membros e cabeças decepados, sangue jorrando de artérias abertas, automutilação – mas esses são ofuscados pelos aspectos humanos. Pode-se reclamar das diferenças entre “Deixe Ela Entrar” e “Deixe-me Entrar“, mas há uma crítica constante: os dois filmes são sobre os excluídos da sociedade, os introvertidos e as conexões que eles fazem um com o outro. Porém, não é o mesmo sentimento que ocorre entre americanos e os filmes que não falam outra língua que não seja o inglês.