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FOUR LIONS (Four Lions)

Reino Unido, 2010 – 97 min.

Comédia

Direção: Chris Morris

Roteiro: Chris Morris, Jesse Armstrong, Sam Bain & Simon Blackwell

Elenco: Riz Ahmed, Arsher Ali, Nigel Lindsay, Kayvan Novak, Adeel Akhtar, Craig Parkinson.

Para este que vos escreve “Four Lions”foi um dos melhores filmes do ano passado.

O terrorismo é estúpido, assim como os terroristas são estúpidos. Porém, parece-me que até então ninguém percebeu isso ou não foi suficientemente percebido, principalmente no cinema, que tendem a imaginar os terroristas como os autores de conspirações diabolicamente complicadas. Mas certamente o histórico recente sugere que cada mandante extremista que more em uma caverna em algum lugar do mundo, está cercado por inúmeros palhaços, bobos e imitadores, os seus sonhos de glória amarrados a seus ideais religiosos. Acreditar no céu é comum. Mas certamente, apenas uma pessoa estúpida explodiria a si mesmo para chegar lá mais cedo. “Four Lions” é uma comédia ironicamente hilária e muito acida, que transforma terroristas em palhaços e ainda leva o terrorismo a sério.

Como pode tal equilíbrio ser alcançado? Eu não sei. Competência, provavelmente. Ela ajuda a ter um roteiro onde dois dos quatro roteiristas creditados também trabalharam em “In the Loop”, um dos filmes mais engraçados de 2009. O quarto escritor, que também é o diretor Chris Morris, conhecido na Inglaterra por satirizar com inteligência os assuntos cheios de tabus. É uma coisa boa, também, porque vamos ser honestos – se você vai fazer uma comédia sobre o terrorismo, é melhor que você saiba o que está fazendo.

“Four Lions” emprega a tática de ter uma pessoa normal, rodeada por pessoas loucas. Todos são muçulmanos. Quatro têm raízes paquistanesas. Um deles é Omar (Riz Ahmed), um britânico de barba ruiva, cujas idéias são as mais agressivas e que decidiu seguir o caminho da jihad. Com certeza, isso não é “normal”, por si só, mas Omar, pelo menos, parece ser são, porém ideologicamente equivocado. Ao estabelecer seu próprio núcleo, os melhores que ele pode recrutar são Waj (Kayvan Novak), um companheiro estúpido; Faisal (Adeel Akhtar), que comprou galões de peróxido de hidrogênio na farmácia, mas tomou o cuidado de mudar o timbre da voz cada vez ele comprou um novo galão para evitar suspeitas, e Barry (Nigel Lindsay), o único não-árabe no grupo, um convertido ao Islã e sem dúvida o mais zeloso combatente. Ele é ridiculamente ortodoxo. Nenhum deles têm um plano muito claro, Barry, o convertido, entende que eles devem explodir numa mesquita e radicalizar os moderados muçulmanos.

“Four Lions” é impossível de categorizar. É uma comédia de humor negro, uma sátira perversa, um suspense onde as emoções centram-se na incompetência dos vilões. É alimentado tanto pela alegria quanto pela raiva. Mostra personagens tão deslumbrados com a perspectiva da próxima vida que não se preocupam com sua vida presente – ou a nossa. Trata-se de muçulmanos, mas também sobre a mentalidade fundamentalista, em geral, que não admite dúvida.

Tal como acontece em “In the Loop”, o estilo de cinema aqui é solto e low-fi, numa uma extensa série de esboços ao invés de uma história bem traçada. Omar e Waj passam um tempo em um campo de treinamento no Paquistão, mas são expulsos por incompetência geral. Barry, ao participar “disfarçado” de um painel sobre a tolerância religiosa, recruta um jovem de cabeça quente, Hassan (Arsher Ali), que parece ter confundido a jihad para ser um rapper gangsta. Aos trancos e barrancos, e apesar de uma série de erros cada vez mais sangrenta, os homens montam um plano para bombardear a maratona de Londres.

Nem todos estes esboços são igualmente eficazes, – há um pouco demasiado de tempo gasto nas bravatas de Barry, e não o suficiente entre a maravilhosa interação entre Omar e Waj – mas em suas melhores cenas, “Four Lions” capta a lógica doentia do terrorismo e eleva ao extremo lógico da paródia. Se inocentes são parte do dano colateral esperado de um ataque terrorista, o que pensar da idéia de explodir um restaurante cheio de muçulmanos que também simpatizam com a Jihad? Em que ponto a violência por uma causa (que, iludidos, embora possam ser, esses caras acreditam que estão lutando) perde seu significado e se torna o assassinato sem sentido? Para aqueles de nós assistindo na platéia, é claro, a resposta é simples: o terrorismo é sempre um cruel assassinato. Mas, como vemos esses caras se envolvem para elaborar uma imensa ginástica mental a fim de justificar seus atos, temos um vislumbre de ofuscação ideológica em ação. “Ouça seu coração”, aconselha Omar a Waj na tentativa de mentaliza-lo para uma missão perigosa. “Meu coração diz que isso é errado”, responde Waj mas Omar pensando rápido responde: “O que diz a sua cabeça?”

Longe da sátira e cinismo niilista que sua premissa poderia sugerir, “Four Lions” apresenta no final, como uma breve e triste e engraçada paixão contra o extremismo em todas as suas formas. Numa das sub-tramas, envolve o profundamente religioso irmão de Omar, cumpridor da lei, que visita a casa de Omar para disciplina-lo por dar à sua esposa demasiada liberdade. Quando Omar ri dele, o irmão responde com firmeza: “Brincadeira é um sinal de fraqueza.” Esse axioma poderia ser o lema reverso desta corajosa comédia, muitas vezes violenta e brutal: Está na sua vontade de rir do impensável que o filme encontra sua força. A ironia neste caso mostra que o mais engraçado de tudo sobre “Four Lions”, e também o mais comovente, está em como se sublinha o absurdo de um mundo onde todos temos tanta coisa em comum, mas com raiva fingimos ser tão diferente.