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TÚMULO DOS VAGALUMES (Hotaru no Haka)

JAP, 1988 – 88 min.

Animação

Direção: Isao Takahata

Roteiro: Isao Takahata, Akiyuki Nosaka (livro)

 Havia um tempo, não muito distante do atual, em que os adultos diziam que animações (desenhos, animações digitais, animes, entendam como quiser, tudo isso é desenho animado) eram respectivamente para o público infantile, ou seja, para “crianças”. Muito provavelmente por ser algo ilustrado, com personagens bonitinhos que viviam sorrindo e fazendo palhaçada. Ledo engando, desde sempre o objetivo da animação é expressar através do traço do artista a arte de se contar uma história. Criando personagens cativantes, profundos e com muito mais humanidade e sentimentos que muitos adultos (inclua nesta lista este que vos escreve).

Mas para mostrar que as animações não possuem público específico, hoje decidi falar sobre uma das obras do brilhante Studio Ghibli. Criado por dois grandes animadores, Hayao Miyazaki e Isao Takahata, que foram companheiros de trabalho no famoso Nippon Animation, estúdio responsável por alguns clássicos da animação japonesa, como Heidi, Mirai Shonen Conan e Lupin III. O surgimento do Studio Ghibli coincide com o lançamento de Nausicaä do Vale do Vento (Kaze no Tani no Nausicaa), em 1984, e desde então o público tem sido brindado com obras fantásticas, tais como Laputa (Laputa), Princesa Mononoke (Mononoke Hime), A viagem de Chihiro (Sen to Chihiro no Kamikakushi) entre outros.

Normalmente os animes do Studio Ghibli possuem temáticas voltadas à fantasia e são dirigidos por Hayao Miyazaki, mas sua obra mais pungente, realista e autoral foi conduzida por Isao Takahata.

Túmulo dos Vagalumes (Hotaru no Haka) foi lançado em 1988, juntamente com Meu Vizinho Totoro (Tonari no Totoro), e quase não saiu da prancheta de projetos. Poucas pessoas tinham confiança que um anime sério, de fortíssima carga dramática e com um orçamento tão elevado pudesse ser bem sucedido. As dificuldades para o financiamento de sua produção foram evidentes mas, felizmente, Tumulo dos Vagalumes se tornou realidade. Este clássico da animação japonesa conta a história de dois irmãos órfãos durante o bombardeamento de Kobe, no final da II Guerra Mundial. É também uma demonstração maravilhosa do potencial que a arte do anime tem, pelo menos tão versátil quanto os filmes com pessoas reais, e igualmente capaz de dizer tantas verdades e nos tocar de forma tão simples e humana.

O filme é uma adaptação de um livro de mesmo nome, e narra o conto de duas crianças Seita, um menino adolescente com 12 anos de idade e sua irmã Setsuko, uma criança de aproximadamente quatro anos, durante os meses finais da Segunda Guerra Mundial no Japão num dos mais mortíferos ataques aéreos sobre a população civil. Ele detalha as desgraças inefáveis e sofridas que dois inocentes tem de passer para tentar sobreviver em uma guerra que eles nunca planejaram de envolver. É um dos mais poderosos comentários anti-guerra. Desprovido de qualquer mensagem política, ele se propõe a questionar a própria finalidade de uma guerra ao invés de focalizar as causas ou os vilões e é o que torna o apelo universal e transcendente.

Esse recurso também é digno de prêmio por ter uma das melhores abordagens para se contar uma história, não há nenhum truque de câmera extravagante ou edição mágistrosa apenas a simplicidade de uma narrativa poderosa. Aqui o trágico resultado final da história é também a primeira cena do filme, portanto, o filme inteiro é narrado em uma espécie de flashback narrado por Seita, embora o resultado final da história nunca esteja em dúvida, o potencial trágico não consegue deter o público de obter uma forte empatia com os personagens. Desde o início, nos sentimos atraidos pelos personagens, a inocente e angelical Setsuko e o bravo, porém imaturo Seita. O público vê os grandes bombardeios, a mãe é levada pela força do destino e seu único refúgio é destruído, mas mesmo que a história transcorra para o seu fim trágico a nossa vontade de que tudo iria terminar com uma nota feliz só se aprofunda. Mesmo quando se aproxima do fim, você tem essa sensação de que, talvez, tudo voltará ao normal, talvez de mais uma vez ser capaz de ver os rostos sorridentes dos dois irmãos, é este desejo poderoso que sobe lentamente até sua garganta deixando seu olhos se encheram de lágrimas no ato final.

Baseado em um romance semi-autobiográfico de Akiyuki Nosaka – que era um menino na época da bombas incendiárias, cuja irmã morreu de fome e cuja vida tem sido ofuscada pela culpa.  O livro é bem conhecido no Japão, e poderia facilmente ter inspirado um filme com personagens reais. Mas para “Túmulo dos Vagalumes” a animação foi a escolha certa. Um filme com atores reais, provávelmente teria sido sobrecarregado pelo peso de efeitos especiais, violência e ação e a animação de Takahata permite concentrar-se na essência da história, e a falta de realismo visual em seus personagens animados permite que nossa imaginação se liberte do fato literal de atores reais, podendo mais facilmente mesclar os personagens com as nossas próprias associações.

Os poetas japoneses costumam usar uma figura de linguagem chamada makurakotoba, ou numa tradução livre, “palavras de travesseiro” para definir formas de linguagens entre pausas e pontuação, o diretor Yasujiro Ozu usa (adaptando a linguagem) “tomadas de travesseiro” – um detalhe da natureza, por exemplo, para separar duas cenas. Túmulo dos Vagalumes usa-os também. Os visuais criam uma espécie de poesia. Há momentos de ação rápida, como quando a chuva de bombas aterrorizam as pessoas nas ruas, mas esse filme não explora ação, ele medita sobre as suas consequências.

Os locais e cenários são desenhados remetendo ao estilo do artista japonês Hiroshige do século 18. Há grande beleza nelas – não a beleza dos desenhos animados, mas o desenho da paisagem evocativa. Os personagens são típicos de animação japonesa mais moderna, os corpos infantis e características de grande plasticidade (bocas são pequenas quando fechada, mas enorme quando aberto no choro de uma criança). Este filme prova, se é que ele precisa provar, que a animação não produz efeitos emocionais através da reprodução da realidade, mas através da intensificação de simplificá-la, de modo que muitas das seqüências são sobre idéias, não as experiências.

Há momentos individuais de grande beleza. Um deles envolve uma noite, quando as crianças pegam vagalumes e usá-os para iluminar a caverna. No dia seguinte, Seita encontra sua irmã cuidado de enterrar os insetos mortos – como ela imagina que sua mãe fora enterrada. Há outra seqüência em que a menina prepara o “jantar” para seu irmão, usando barro para fazer “bolinhos de arroz” e outras iguarias imaginárias. E observe o calendário e o uso do silêncio em uma seqüência onde encontram um cadáver na praia, em seguida, outro ataque dos bombardeiros aparecem mais longe no céu.

Não por acaso as crianças são consideradas a forma mais pura do espírito humano, elas nos lembram de como é ter medo, não saber o que é mentir ou enganar, e como era para nossas vidas serem preenchidas com admiração, alegria e curiosidades. Os desenhos animados tem usado as crianças para criar esse efeito de lembrança e introspecção sobre o público que os atores adultos raramente expõe, uma das poucas exceções fica por conta de Drew Barrymore em ET. Seita embora apenas um esboço em um papel, o deixa com uma impressão semelhante, seu comportamento disparatado e suas expresses, torna impossível de não se apaixonar por ela, e quando o fim chegar você se sente incrivelmente atraído para a tragédia que se abate sobre ela. Dela é certamente um dos personagens infantis mais profundos já escritos, eu não sei se é possível medir a semelhança personagens, mas eu acho que quando você sente mais a solidão dos personagens do que o destino final dos personagens, você pode ter a certeza que a corrente foi rompida, é quase como se você se senti-se feliz ao perceber que a morte será finalmente o que aliviará de seu sofrimento.

Seu irmão Setsuko evoca sentimentos similares, o seu é um personagem na encruzilhada, dividido entre o desejo de prestar os melhores cuidados a sua irmã ou a viver uma vida “confortável” sem responsabilidades. Você o vê cometer erros, mas então você também percebe que ele é apenas mais um ser humano que é incapaz de fazer as escolhas mais práticas e simples em sua vida. No final, seu último sacrifício diz muito sobre seu caráter, embora capaz de sustentar a si mesmo, ele é incapaz de suportar a solidão do mundo, sem vontade de viver por mais tempo que ele deseje, ir ao encontro de sua irmã e sua família mais uma vez, faz da última e a primeira cena uma experiência trágica e pacífica ao mesmo tempo.

Uma obra forte e sensível, pesada e sutil, que tem a maestria de conhecer os momentos exatos para ser intensa e chocante, e quando deve demonstrar leveza e sobriedade. Funciona tanto como um drama pessoal, como um retrato devastador da dor e do sofrimento que a guerra traz aos inocentes, conjugado com uma trilha sonora que auxilia em transmitir toda a melancolia. É preciso um pouco de coragem para assistir ao “Túmulo dos Vagalumes”, mas as recompensas são enriquecedoras. Lirico, comovente, estimulante e humano. Dizer que animação é coisa para crianças é o mesmo que abdicar do tempo em que você foi uma criança. Simplesmente… perfeito!

“Saito, por que os vagalumes tem de morrer tão cedo?”

OBS: Até o presente momento não postei nenhum link aqui no blog, mas como este é um filme de difícil acesso, e cujo o mesmo não se encontra disponível em locadoras, estou disponibilizando o link dele (CLIQUE AQUI), porém não há legendas, mas ela pode ser facilmente encontrada no legendas.tv.