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NEVOEIRO, O (The Mist)

EUA, 2007 – 126 min.

Direção: Frank Darabont

Roteiro: Frank Darabont

Elenco: Thomas Jane, Marcia Gay Harden, Laurie Holden, Andre Braugher, Toby Jones, William Sadler, Nathan Gamble

Alguns filmes de terror podem deixar seus cabelos em pé. Alguns, podem fazer sua pele se arrepiar. O Nevoeiro (The Mist, 2007) me passou a sensação de que meus nervos estavam sendo obliterados de dentro para fora por uma estalactite de gelo. Tamanha sua força, que compartilha apenas pelos melhores filmes do gênero, a capacidade de fazer você se sentir enjoado devido a tensão psicológica. O Nevoeiro é o que um filme de terror deve ser – escuro, tenso e pontuado por sangue suficiente apenas para estremecer e manter o espectador estático. Na verdade, o final do filme é tão intransigente que se deve presumir que o diretor Frank Darabont havia cortado o final da película para que o estúdio não podece interferir. (É interessante notar que o final não é o mesmo que a novela de Stephen King, mas não vou falar o que ele mudou para não estragar a surpresa.) Darabont construiu um filme tenso que, em última instância trata mais sobre a paranóia, o fanatismo religioso e o preço da desesperança quando se trata de monstros. Mas as criaturas estão presentes e espreitam na densa névoa branca.

Antes de assumir a cadeira de diretor em Um Sonho de Liberdade (Shawshank Redemption, 1994), Frank Darabont, era um roteirista com uma carreira consolidada, adaptou ao lado de Steph Lady Frankenstein de Mary Shelley (Frankenstein, 1994) dirigido por Kenneth Branagh, além de episódios de Os Contos da Cripita e  As Aventuras do Jovem Indiana Jones. O Nevoeiro é seu quarto filme e o terceiro que usa uma história de Stephen King como fonte de material. Antes de O Nevoeiro, Darabont se submetia as histórias dramáticas narradas por King, mas desta vez ele dá uma guinada em direção ao horror. Onde antes ele não tinha muita autonomia nos roteiros e trazia composições quase literais, aqui que ele se concentra mais na interação entre os personagens do que sobre os monstros. Ao final, uma pergunta que fica é, qual grupo é mais selvagem: nós ou eles? O questionamento de  Darabont em algumas formas ecoa um sentimento expresso por Ellen Ripley em Aliens: que os seres humanos pode ser tão ruins ou piores do que os pesadelos que às vezes nos ameaçam. (O filme pede outras coisas da série Alien, incluindo o encapsulamento e a expulsão das criaturas do corpo das vítimas).

O Nevoeiro começa no mundo “normal” antes de tomar rapidamente uma viagem para o surreal. David Drayton (Thomas Jane) está pintando em seu estúdio quando uma violenta tempestade aterriza sobre a pequena cidade no estado de Maine. Na sequência, uma árvore atravessa a janela do estúdio e outra achatou seu ancoradouro. Ao acalmar no dia seguinte, ele, seu filho Billy (Nathan Gamble) e seu vizinho, Brent Norton (Andre Braugher) decidem ir ao supermercado buscar estoque de comida antes que uma misteriosa neblina que está se espalhando por todo o lago tome conta do local. O supermercado é um retrato do caos quando a energia acaba, mas que está prestes a ficar muito pior. Aos poucos a neblina envolvendo tudo, e alguém entra no supermercado com sangue no rosto, gritando que há algo lá fora. Não muito antes de David e alguns dos outros clientes e empregados da loja terem um vislumbre do que esse “algo” é. Enquanto isso, a fanática religiosa Sra. Carmody (Marcia Gay Harden) acredita que este é um sinal do apocalipse e que Deus o tenha designado para liderar a sua infiel a salvação – talvez por sacrificar aqueles que rejeitam seus ensinamentos.

Grande parte do filme se passa no interior do supermercado, apesar das cenas de maior tensão serem aquelas em que um ou mais personagens deixam a sua relativa “segurança”, por um curto período. No interior, o povo aterrorizado e enclausurado faz crescer cada vez mais a tensão, a população se divide em três grupos: aqueles que acreditam na explicação sobrenatural e cega da Sra. Carmody, aqueles que rejeitam que algo está errado e seguem Brent Norton, e aqueles que acreditam que há monstros, mas não acham que a oração é a resposta e seguem David. É uma história que já vimos antes: enquanto os demônios se reúnem as suas forças nas trevas, os seres humanos brigam entre si.

O Nevoeiro oferece alguns heróis improváveis. David é um típico personagem de queixo quadrado, de boa aparência, cujo bom senso e pensamento rápido faz dele uma pessoa segura durante uma crise. Mas alguns dos piores golpes são direcionados a Ollie (Toby Jones) e a idosa Irene (Frances Sternhagen). Estes dois aparentemente inofensivos e por que não dizer, inocentes se mostram bravos e destemidos ao lidar com uma situação de risco. Nathen Gable demonstra todos os medos e receios de uma criança, não se exige dele mais do que uma criança poderia oferecer em tal situação, pelo contrário, a falta da mãe e o medo do que espreita o “mundo externo” faz ele regredir ainda mais e procurar a todo instante pela proteção paterna. Enquanto isso, o desempenho de Marcia Gay Harden como a profeta/pregadora Sra. Carmody faz a pele arrepiar. Sua performance é poderosa e inquietante, seus discursos inflamados, condenam a falta de fé e a falta de “moral”das pessoas e eleva o medo e a ira que há no cerne das pessoas, utilizando isso como ferramentas para atrair mais fiéis para a sua causa, não atoa o medo da morte e o pavor do que está por acontecer sempre foram materiais de cartilha por muitas religiões. E Laurie Holden interpreta um dos seguidores mais fiéis de Davi – uma jovem professora, cuja principal finalidade é proporcionar conforto a Billy.

Os efeitos especiais são uma força e uma fraqueza. Eles são eficazes quando retrata os monstros vistos através da escuridão da neblina. (Há um momento horrível e imponente no final do filme.) Quando vistos um pouco mais perto e mais claro, no entanto, o CGI é muito aparente. Porém, a atmosfera é a força de Darabont. É o que impulsiona o filme – imaginar e temendo o que poderia estar lá fora, se preparando para lançar-lhes à grandes janelas de vidro que frente um supermercado. Usando ingredientes fornecidos por King, o diretor fabrica um mbiente poderoso que termina com uma cena tingida com a ironia mais amarga que se possa imaginar.

King muito provavelmente pegou emprestado as criaturas dos contos de Lovecraft e o mito de Cthulhu, mas aonde mora o esplendor da narrativa de Lovecraft, mora um dos equívocos do filme, a “explicação” que detalha o que é a névoa e porque as criaturas estão consumindo a humanidade, parece obrigar o espectador a aceitar. O cenário poderia ter funcionado melhor se fosse deixado à nossa imaginação descobrir de onde os monstros vêm ou porque eles estão aqui. Felizmente, é uma pequena parte de um filme feito de forma soberba. O inesperado é parte do que faz um filme como O Nevoeiro satisfatório. As regras usuais dos filme de terror, onde o que vale é a contagem de corpos e a quantidade de sangue jogado na tela, não necessariamente se aplicam aqui. Embora o filme definitivamente traga uma sensação de mal estar e tristeza, este é um “must-see” para quem gosta do gênero.

Os monstros que caminham envoltos pela névoa são muitas vezes os mesmos que nos amedrontam em nossos pesadelos, mas enquanto estes estão presos em nosso inconciente é o mal que o homem consciente faz que vive muito além dele.