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HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX (Harry Potter and the Order of Phoenix)

EUA e Reino Unido, 2007 – 138 min.

Direção: David Yates

Roteiro: Michael Goldenberg, basedo no livro de J.K. Rowling

Elenco: Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson, Helena Bonham Carter, Robbie Coltrane, Warwick Davis, Ralph Fiennes, Michael Gambon, Brendan Gleeson, Gary Oldman, Alan Rickman.

Nota: Nunca esquecerei o dia em que fui ao cinema assistir ao quinto filme da saga Harry Potter. Era o sábado da estreia e o cinema do Bourbon Country estava lotado, estava na fila acompanhado pela Sra. minha mãe quando a sessão anterior a minha estava saindo da sala (PS. Até então não havia lido os livros). Eis que a minha frente estava um grupo de adolescentes entre seus 14-16 anos e um cidadão saindo da sessão foi de encontro ao grupo, eis que um pergunta: “E ai, gostou?”, “Sim.” responde ele prontamente, mas com um adendo. “O triste é que fulano morre”. Comparo isso ao pessoal da década de 80 indo assistir ao filme Star Wars: O Império Contra Ataca (Star Wars: The Empire Strikes Back, 1980) e receber a notícia de que Darth Vader é pai de Luke Skywalker.

Nunca mais tive a oportunidade de agradecer ao sujeito, mas seja quem for. Muito obrigado.

 

Hogwarts não é mais a mesma. Os rostos não estampam mais a alegria e o encantamento de outrora. Quanto mais a Saga do menino bruxo avança, mais sombria e nebulosa ela fica. Se compararmos com o primeiro filme veremos que as luzes do castelo que iluminavam e compreendiam o personagem, hoje já não sustentam o mesmo calor. Foi se o tempo em que a diversão era atravessar a coluna de pedras da plataforma 9 3/4. Com este filme, sentimos que estamos à beira de algo grande, escuro e ameaçador. Para uma franquia que começou sob a tutela leve do diretor Chris Columbus, as imagens foram ficando progressivamente mais escuras. A Ordem da Fênix é facilmente o mais sombrio da série.

Este é o primeiro Harry Potter não adaptado pelo roteirista Steve Kloves, que decidiu pular de O Cálice de Fogo para O Enigma do Príncipe. Michael Goldenberg faz um trabalho admirável preenchendo a brecha. Ele agiliza o maior romance da série em um filme compacto e direto, sem perder qualquer um dos pontos da trama principal. Obviamente que condensar um romance de um pouco mais de 800 páginas em um roteiro é evidenciar que algo ficará de fora, mas os fãs dos livros vão achar que o filme é fiel, se não fosse assim não estaríamos falando de uma adaptação e sim uma transcrição. O roteiro é lúcido e rápido, não faz sentir que a leitura do livro seja necessária para a compreensão do enredo.

O diretor David Yates torna-se o quarto homem a sentar na cadeira de diretor da série (Ele também ficou encarregado dos últimos filmes). Dos quatro, Yates foi o que passou a maior parte de sua carreira trabalhando na televisão britânica. Sua visão de mundo de Harry Potter é muito similar a de Mike Newell (O Cálice de Fogo), que é a de um lugar cinzento e sombrio onde a escuridão se espalhou por tudo. A maravilha da magia evidente nos dois primeiros filmes se foi. A mágica agora é mais do que algo perigoso, é algo a ser temido.

Em A Ordem da Fênix, as linhas de batalha estão sendo traçadas, com Lord Voldemort (Ralph Fiennes) e sua legião de Comensais da Morte e outras criaturas de um lado, e Harry Potter (Daniel Radcliffe) e seus amigos no outro. Harry é apoiado por seus colegas de escola, tais como Ron Weasley (Rupert Grint), Hermione Granger (Emma Watson), Chang Cho (Katie Leung), Luna Lovegood (Evanna Lynch) e Gina Weasley (Bonnie Wright), e pelos adultos, como o diretor de Hogwarts, Dumbledore (Michael Gambon), Professor McGonagall (Maggie Smith), Professor Moody (Brendan Gleeson), e Sirius Black (Gary Oldman). Mas há aqueles que desconfiam do pronunciamento de Harry de que o Lorde das Trevas tenha retornado. O Ministério da Magia vê uma conspiração neste e envia Dolores Umbridge (Imelda Staunton) para Hogwarts como um inquisidor, para resolver esses problemas. Depois de usurpar a posição de Dumbledore, ela ajusta suas vistas em neutralizar Harry. Mas as forças do mal estão no exterior e Harry deve ensinar seus colegas como se defender. Umbridge quer que os encontros secretos de Harry e seus amigos termine e ela fará o que for necessário para realizar esse objetivo. Enquanto isso, os planos de Voldemort se enraízam.

A Ordem da Fênix continua o desenvolvimento do caráter que tem estado em evidência ao longo da série, personagens que começam com características secundárias cuidadosamente tornaram-se complexos e interessantes. Ciúme, raiva, inveja, e a atração sexual elevaram suas cabeças. Em uma cena há muito esperada, Harry experimenta o seu primeiro beijo. O filme nunca corre o risco de se transformar em um romance, mas destaca que há mais do que personagens recitando palavras em latim e domesticando gigantes. No centro da história não está a luta contra Voldemort, mas a amizade entre Harry, Rony e Hermione. Eles são adolescentes agora, interagem de forma diferente do que nos primeiros filmes, mas a passagem de ano felizmente só fortaleceu seus laços.

Daniel Radcliffe e Rupert Grint se desenvolveram em bons atores. Radcliffe teve a oportunidade de mostrar sua performance (e algumas outras coisas) em um espetáculo de palco muito divulgado, enquanto Grint se arriscou em outros papéis no cinema. Emma Watson até então era tida como o elo mais fraco do elenco, não por coincidência, o único papel que ela interpretou é a de Hermione. Como foi o caso de todos os filmes, o elenco adulto é um “quem é quem” do cinema britânico. Membros do elenco (Michael Gambon, Maggie Smith, Ralph Fiennes, Emma Thompson, Alan Rickman) recebem a adição de Imelda Staunton e Helena Bonham Carter. Rickman mais uma vez prova que a ambigüidade pode ser mais arrepiante do que o mal puro. Sua performance como Snape é muito mais assustadora do que Fiennes com Voldemort. Quando se trata de gerar ódio público sem paralelo, no entanto, ninguém faz isso melhor do que Imelda Staunton, e isso é em parte porque o sorriso irritante raramente erra. Ela poderia facilmente ministrar uma palestra sobre tortura e masoquismo com aquele sorriso.

No início da saga, os cineastas (leia-se Chris Columbus) estavam muito intimidados pelos livros, verificando também, que durante as filmagens dos primeiros filmes, JK Rowling estava escrevendo os livros, logo, ela não queria que nada fugisse do seu controle. Ao longo dos anos, eles tomaram mais liberdade, permitindo que os recursos para alcançar uma identidade única, ainda que atrelados ao sucesso da série de JK Rowling. Apesar do estilo de Yates não se comparar com o de Alfonso Cuaron (O Prisioneiro de Azkaban), há mais substância nele. Há um senso de aventura e a progressão dos acontecimentos não é previsível. Os efeitos especiais não são dos melhores, mas eles são bons o suficiente para entregar o trabalho feito, além de várias tomadas serem de tirar o fôlego.

Quando Harry Potter e a Pedra Filosofal estreou em 2001, parecia uma versão infantil de O Senhor dos Anéis. Seis anos depois, a trilogia de Tolkien está consolidada, mas a série de Rowling está acertando seu passo. Com A Ordem da Fênix, Harry Potter encontra um terreno firme e sólido, cumprindo a promessa iniciada em O Prisioneiro de Azkaban e O Cálice de Fogo. Essas histórias não são de magos e magias explosivas e fagulhas em varinhas de condão que fazem barulho durante a noite, elas são contos sombrios onde os temas e as criaturas se tornam cada vez mais distorcidos.