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HARRY POTTER E O CALICE DE FOGO (Harry Potter and the Goblet of Fire)

EUA e Reino Unido, 2005

Direção: Mike Newell

Roteiro: Steve Kloves, baseado no romance de JK Rowling

Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Alan Rickman, Brendan Gleeson, Robbie Coltrane, Miranda Richardson, Ralph Fiennes, Timothy Spall, David Tennant

 

A melhor coisa que poderia acontecer com a franquia Harry Potter foi o afastamento do diretor Chris Columbus do cargo. Depois de preparar o terreno e adaptar literalmente o conto de J.K. Rowling, em Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta, Columbus foi substituído por Alfonso Cuarón em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Com o terceiro filme, a saga de Harry Potter começou a assumir uma vida cinematográfica própria. Não era mais regurgitar em tela todo conteúdo dos livros. Agora, com Mike Newell (Quatro Casamentos e um Funeral (Four Weddings and a Funeral, 1994)) no comando, Harry Potter e o Cálice de Fogo prova ser menos escuro que seu antecessor, mas o mais ambicioso Harry Potter da franquia. Ao ter o trabalho de cortar os conteúdos do livro a um tamanho razoável, o roteirista Steve Kloves (que adaptou os quatro romances) teve que fazer muitas compressões, e a produção resultante é fiel à sua fonte, mas varia muito quando se trata de detalhes.

Porém, ela se baseia menos no desenvolvimento da trama e caminha mais na trilha de uma versão pipoca de um blockbuster. O filme é carregado de efeitos especiais e usa edição hábil para fazer as cenas de ação muito maior do que qualquer coisa que já vimos na franquia. Mike Newell traz uma abordagem mais leve que funciona bem nas cenas de comédia, mas realmente não nos momentos mais obscuros além da falta de profundidade dramática.

O personagens “regulares” estão todos de volta – um ano mais velho e um pouco mais sábio, Harry Potter (Daniel Radcliffe) tem sonhos estranhos e teme que seu arqui-inimigo Voldemort (Ralph Fiennes) possa estar planejando um retorno corpóreo. Sua amiga Hermione (Emma Watson) está se transformando em uma bela jovem e atraindo uma boa quantidade de atenção masculina – um fato que não escapou o aviso dos olhos verdes de Ron (Rupert Grint). Neste ano, o quarto do trio na Escola de Bruxaria e Magia de Hogwarts, haverá o “Torneio Tri Bruxo”, no qual o campeão de cada escola, cada um representando uma das três escolas, competem uns contra os outros pela vitória. Os campeões são Cedric Diggory (Robert Pattinson), Fleur Delacour (Clémence Poésy), e Viktor Krum (Stanislav Ianevski). Inesperadamente, um “elemento extra” é adicionado: Harry Potter. Os desafios do torneio revelam-se potencialmente mortais devido sua dificuldade, e Harry se pergunta se há forças alinhadas contra ele em uma conspiração. Os lados parecem ser claramente definidos: aqueles que estão com Harry – Dumbledore (Michael Gambon), Prof McGonagall (Maggie Smith), Hagrid (Robbie Coltrane) e Olho-Tonto Moody (Brendan Gleeson) como novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas  – e aqueles que estão contra ele – Professor Snape (Alan Rickman), Draco e Lucius Malfoy (Tom Felton e Jason Issacs), Rabicho (Timothy Spall), e Barry Crouch Jr. (David Tennant). No entanto, nem tudo pode ser como parece inicialmente.

Harry Potter e o Cálice de Fogo contém bons momentos e outros não tão bons, embora os bons superam em muito os ruins. O filme é mais orientado para a ação que seus antecessores, com várias sequências interessantes (principalmente uma batalha com um dragão e um inimigo subaquático com aparência de sereia), mas fiquei desapontado com a forma com que o filme culmina. Se comparado aos pontos altos, este surge como um anticlímax. (Este é um caso de que algo trabalha de forma melhor na página escrita do que na tela.)

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (Harry Potter and the Prisioner of Azkaban, 2004) é mais escuro e mais denso, trazendo um ar de cinema de arte para a saga. Harry Potter e o Cálice de Fogo não é tão elegante, mas ainda assim amplia a temor e a escuridão da série. Ao contrário da edição anterior, este filme centra-se principalmente nos estudantes, permitindo que muitos dos adultos se tornem pouco mais que coadjuvantes de luxo, Professor Snape, por exemplo, tem apenas um punhado de linhas. Assim como os personagens crescem, este é o filme da série que acompanha a evolução de seu público, fazendo a transição de algo feito para crianças para algo feito para adolescentes e jovens adultos.

No desenvolvimento do enredo, Kloves percorreu uma corda bamba. Certas irrelevâncias aparentes foram retidas, a fim de manter os leitores (que compõem a maioria do público dos filmes) felizes. Cortes adicionais poderiam ter sido feitos para melhorar o ritmo do filme. O filme resultante arrasta por vezes, mas não é tão demorado para que o espectador fique impaciente. Alguma familiaridade com o mundo de Harry Potter é necessária, seja através dos livros ou filmes.

Com as exceções de um estádio de quadribol e um dragão, o filme tem poucos efeitos especiais. Isso não quer dizer que o CGI tenha sido usado com moderação, mas vê o filme de forma menos ostensiva do que a de seus antecessores. É mais íntimo e real, e que reforça a urgência da ameaça. A nuvem negra que paira sobre Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban escureceu e baixou.

Para os atores Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint, este é um momento estranho, como seus personagens, eles estão lutando pela transição da infância à vida adulta. Nenhum destes três é experiente, e há momentos em que suas performances traem sua falta de experiência. Eles têm crescido consideravelmente desde O Prisioneiro de Azkaban, seus espíritos adolescentes estão em ebulição (além de seus hormônios). Por exemplo: Harry lança seu olhar sobre a adorável Cho Chang (Katie Leung), mas parece muito bobo e atrapalhado quando ele luta em busca de coragem para convida-la para o baile; e Ron fica consternado ao descobrir que Victor Krum (Stanislav Ianeski), o campeão da Escola de Durmstrang, fita Hermione. O diretor Mike Newell e o roteirista Steve Kloves realmente realçam o embaraço da adolescência, o que nos faz enfatizar com os personagens e suas dificuldades no amor, que são bem humorados e acrescentam para o ritmo do filme.

Dos adultos de retorno, apenas Michael Gambon também tem muitas linhas para contar. Os outros aparecem em algumas cenas, mas são utilizados principalmente para revestir o fundo. Brendan Gleeson interpretando o Professor Alastor Moody, o novo de Defesa Contra as Artes das Trevas, tem bastante tempo em tela, que permite-nos olhar para seu globo ocular de flutuação livre. Outro recém-chegado é David Tennant como Barty Crouch Jr., que começa a imitar um cão raivoso na forma humana. Finalmente, há Ralph Fiennes, cujo Voldemort é fundamental e maligno.

A cada novo filme de Harry Potter, as apostas são elevadas. Mike Newell deu a série um olhar fresco sem desfazer o trabalho de base estabelecido por seus antecessores, embora tenha sido um passo atrás se comparado ao seu antecessor. No reino da fantasia e aventura, Harry Potter e o Cálice de Fogo é imperfeito, no entanto, mágico.