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SUPER 8 (Super 8)

EUA, 2011 – 112 min.

Direção: J.J. Abrams

Roteiro: J.J. Abrams

Elenco: Joel Courtney, Kyle Chandler, Elle Fanning, Riley Griffiths, Ryan Lee, Gabriel Basso, Zach Mills, Jessica Tuck, Joel McKinnon, Ron Eldard, Noa Emmerich.

Super 8 (Super 8, 2011), um thriller de ficção científica escrito e dirigido por J. J. Abrams e produzido por Steven Spielberg, conscientemente evoca a nostalgia da infância na década de 70 e 80 – não necessariamente a nossa verdadeira infância, mas uma em que todos nós reconhecemos no cinema. A pequena cidade onde este filme se ambienta – a fictícia cidade de Lillian, Ohio – não é exatamente semelhante aos subúrbios de E.T. O Extraterrestre (E.T. The Extra-Terrestrial, 1982), mas ambos os lugares existem no mesmo mapa espiritual. Eles são aparentemente as configurações comuns em que o misterioso, o assustador e coisas maravilhosas estão acontecendo, apenas fora do alcance da visão adulta. Algo como se estivéssemos retornando à uma sequência de Os Goonies (The Goonies, 1985) ambientado num filme ficção dos anos 50.

Em Super 8, Abrams faz uma mini-biografia de sua infância, recordando os dias em que ele, como muitos outros futuros cineastas, inspirados pela cultura de visionários diretores que surgiram no cenário da sétima arte no final dos anos 70 e início dos anos 80, pega emprestado a câmera de seus pais para fazer um “filme”. Estabelecer a ação em 1979 também permite uma dose de nostalgia quando se trata de música, roupas, atitudes e tecnologia. A câmera Super 8, é claro, um artefato do passado (crianças de hoje usam smartphones para realizar suas filmagens), mas acalentado por muitos. Sem uma Super 8, teria havido um Spielberg, um Scorsese, ou um George Lucas?

É impossível assistir a Super 8 e não recordar de duas das mais conhecidas produções de Spielberg: Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977) e E.T. O Extraterrestre (E.T. The Extra-Terrestrial, 1982). Há também elementos de suas produções “mais sombrias” – Tubarão (Jaws, 1975), Parque dos Dinossaros (Jurassic Park, 1993) e Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005) – e acena para alguns títulos que Spielberg produziu – Os Goonies (The Goonies, 1985). Como diretor, Abrams (Missão: Impossível III (Mission: Impossible III, 2006) e Star Trek (Star Trek, 2009)) possui uma curta carreira como diretor de cinema para ser exaltado como uma mente brilhante, mas começa a emergir em Super 8.

O filme se passa em 1979, uma época em que Spielberg estava no auge e J. J. Abrams estava no ensino médio. De forma semelhante, todos os protagonistas do filme estão na escola, e assim como Abrams, que começou a gravar seus filmes em uma câmera Super 8 quando ele devia ter por volta de 8~10 anos de idade, eles são a nova geração de cineastas amadores. No centro da trama segue um grupo de crianças. Entre elas está Joe Lamb (Joel Courtney), o diretor de maquiagem e efeitos especiais, cuja mãe morreu em um acidente em uma siderúrgica. Seu pai (Kyle Chandler) é o vice-xerife que na dor e sofrimento cuidou e criou seu filho. Alice (Elle Fanning), uma menina rebelde que cresce do lado errado da trilha; Charles (Riley Griffiths), o diretor e roteirista, e Cary (Ryan Lee), o cameraman / pirotécnico / zumbi; Preston (Zach Mills), o responsável pela iluminação; e Martin (Gabriel Bosso), o ator principal e co-roteirista. O projeto que os une é a filmagem de um filme de zumbis, o que os obriga a fugir de suas casas à meia-noite para filmar numa estação de trem nas proximidades. As crianças estão gravando quando testemunham um devastador descarrilamento de trem e o surgimento de uma misteriosa ameaça predatória. Não muito depois o xerife desaparece, os cães locais desaparecem do vilarejo e um batalhão militar secreto chega para “limpar” a ameaça até então não revelada. Assim como Cloverfield – O Monstro (Cloverfield, 2008), que Abrams produziu e com o qual o filme tem muitas semelhanças (embora não haja, felizmente, a câmera vertiginosa de mão), Super 8 é reservado sobre a natureza exata da ameaça. É importante notar, no entanto, que os elementos da narrativa de ficção científica é o ponto mais fraco do filme. Abrams, como demonstrado em Star Trek, está mais preocupado com a narrativa do que com a história. O que em alguns momentos é uma pena.

Uma prova irrefutável de que Abrams aprendeu algo com os filmes de Spielberg tem a ver com suas raízes em Tubarão: quando se trata de um monstro, quanto menos se apresentar, melhor é o resultado final. Com efeito, que quando chega a hora da “grande revelação”, a criatura é vislumbrada apenas brevemente. Mesmo durante um ataque a um ônibus (que lembra o ataque do T-Rex em Jurassic Park), a câmera evita de forma persistente o monstro. Em Tubarão, este foi um resultado feliz e necessário em virtude do fato de que o tubarão falso parecia muito bobo e irreal se exposto na tela por muito tempo. Com Super 8 e seus refinados efeitos especiais, é uma decisão deliberada.

As relações entre as crianças representam o coração e a alma do filme. Estes seis amigos agem em relação uns aos outros de forma muito real. A vida familiar em casa também demonstra dificuldades, movimentada em contraste com as relações controversas entre Joe e seu pai Jack, e Alice e seu pai alcoólatra Louis (Ron Eldard). Mães ausentes e pais distantes – programático na forma apresentada, revelam os esforços que levam os jovens a encontrar e cultivar algum lampejo de afeto que são manipulados por Abrams com ternura e tato. Há usos interessantes, também, do “filme-dentro-de-um-filme”, com eles empregando suas forças para gravar o filme de terror, se utilizando do estado de caos em que se encontra a cidade como pano de fundo para a sua própria ficção.

Os atores mirins trazem, mesmo sem muita bagagem, credibilidade para o filme. Aquela com a maior experiência é Elle Fanning, que emergiu na sombra da irmã mais velha, porém, prova ser mais brilhante a cada filme com uma série de performances fortes – e Super 8 irá melhorar sua reputação. Joel Courtney mostra mais equilíbrio do que se poderia esperar de alguém que faz sua estreia profissional, ele é o líder e nunca há uma razão para duvidar de sua função. Também é notável Ryan Lee, cujo desalinhado retrato de Cary adiciona um elemento de alívio cômico (não que Super 8 nunca se torne sombrio o suficiente quando necessário).

De certa forma, Super 8 oferece para a geração de hoje de cinéfilos, uma dica de como era ir a um cinema durante os anos 70 e 80, e experimentar o mais recente produto da imaginação e habilidade de Spielberg. Ao longo dos anos, Spielberg amadureceu como cineasta, mas alguns de seus melhores produtos continuam sendo os de quando ainda estava experimentando e aperfeiçoando sua arte. Talvez seja onde Abrams está hoje e, olhando de volta para Spielberg, ele está estabelecendo seu próprio caminho para frente. Super 8 é, em muitos aspectos, um filme de verão perfeito: inteligente, emocionante, sincero e repleto de nostalgia. Acreditem, é uma grande coisa assistir a um espetáculo de cinema que não requer uma lobotomia temporária como gratificação.

P.S.: Por um momento achei que estava vendo uma prequência de Cloverfield.