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DISTÚRBIO FATAL (The Living and the Dead)

Reino Unido, 2007 – 83 min.

Direção: Simon Rumley

Roteiro: Simon Rumley

Elenco: Leo Bill, Roger Lloyd-Pack, Kate Fahy, Sarah Ball

Em Distúrbio Fatal (The Living and the Dead, 2007) assistimos a um bizarro estudo psicológico sobre a degeneração e a dependência, ambientado em um filme de terror que cerca as conversões do gênero. Um exemplo perfeito de como o horror pode ser desafiador e perturbador, misturando uma realidade trágica com um enigma absurdo. Simon Rumley demonstra-se estilisticamente diferente, mas tematicamente semelhante ao brilhante Spider – Desafie sua Mente (Spider, 2002) de David Cronenberg. A obra provavelmente fascinará por sua visão demasiadamente escurecida, excêntrica e também do ponto de vista artístico.

Doença mental, abuso de drogas, perda dos pais, medo de abandono e as formas de como uma doença pode corroer muito mais do que apenas o corpo de uma pessoa. O filme começa nos apresentando a imensa mansão de Brocklebank, onde moram o ex-Lord Donald Brocklebank (Roger Lloyd Pack) e seu filho James (Leo Bill). Embora não seja explicitamente declarado, James parece sofrer de uma combinação desagradável de retardo mental, TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e esquizofrenia, com uma leve adição de psicose plena. James precisa de supervisão constante, e a julgar pela sua aparência, deveria estar em um lugar onde poderia ser vigiado ao longo das 24 horas do dia. No entanto, o orgulho e o amor por seu filho mantêm Donald relutante a tomar essa decisão.

As coisas não vão muito bem para a família. Na verdade, elas acabam ficando rapidamente fora de controle. Donald anda por aí como um homem que só é capaz de manter sua postura, seu olhar é exausto como se fosse incapaz de olhar o amanhã. Seu exterior é calmo, porém, muito devido à sua negação e estoicismo britânico, do que pela paz de espírito em que o mesmo encontra-se. De forma semelhante a um rato em um labirinto tentando de forma desesperada encontrar uma fuga, mas sabendo que não há escapatória. Além da condição de James, sua esposa Lady Nancy (Kate Fahy) está acamada com câncer, e está morrendo. Constatamos ainda, que a propriedade em que vivem está caindo aos pedaços e as finanças do ex-Lord estão ruindo de tal forma que ele precisa sair imediatamente em uma viagem de negócios, deixando sua esposa e filho doentes para serem atendidos por uma enfermeira temporária.

Vislumbramos o “mundo” de James através de tomadas rápidas e alucinantes, contrastando com closes claustrofóbicos e elegantes planos abertos. O diretor Simon Rumley lindamente transporta para a decrépita e escassamente decorada mansão um ar de clausura e temor, um lugar que claramente já passou por dias melhores.

Distúrbio Fatal possui um roteiro ambíguo, com linhas divisórias entre a loucura e a realidade. Os acontecimentos se sucedem de forma surreal, uma vez que linhas entre passado e presente, realidade e ilusão se cruzam. A modificação de tempo faz sentido como um dispositivo de enquadramento e mudança de um homem frágil e louco, e seus pais idosos que vivem em uma mansão abandonada.

Roger Lloyd-Pack e Kate Fahy entregam um grande trabalho como os pais de James, contrastando entre os momentos “felizes” com uma visão mais cansada e maltratada, mas é Leo Bill como James, que lentamente se desintegra, quem comanda a maior atenção. A maioria dos atores que interpretam “deficientes mentais” desenvolvem seus personagens com um conjunto de tiques estabelecidos, truques e astúcias, mas Leo traz algo a mais para o personagem, ele possui uma tridimensionalidade de uma mente em conflito, porém inteiramente solidário, algo como um anti-herói, mesmo quando ele está cometendo alguns atos realmente desagradáveis. Certamente não para todos os gostos, Distúrbio Fatal é um pouco tortuoso, porém admiravelmente reflexivo para um filme do gênero. Hesito em chamá-lo de um filme de terror, mas não há como negar que o filme possui uma carga tortuosa para alguns. O diretor de fotografia Will Field faz um brilhante trabalho, assim como a complexa trilha composta por Richard Chester, estão todos em perfeita sintonia. Tudo conspira para atingir um tom macabro e ao mesmo tempo calmo, pungente e desesperador.