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A ÁRVORE DA VIDA (The Tree of Life, 2011)

EUA, 2011 – 139 min.

Direção: Terrence Malick

Roteiro: Terrence Malick

Elenco: Brad Pitt, Jessica Chastain, Hunter McCracken, Sean Penn, Tye Sheridan, Laramie Eppler

A Árvore da Vida (The Tree of Life, 2011), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, é o novo filme do cineasta americano Terrence Malick e, provavelmente, o trabalho mais ambicioso deste ano. Uma obra elíptica e alusiva, cujas imagens se sucedem de forma onírica, em um filme que retrata as origens do universo e da evolução da vida na Terra, bem como uma partícula da história da humanidade, contada através de uma família em Waco, Texas (cidade natal de Malick), durante a década de 50.

Grande parte de A Árvore da Vida segue o jovem Jack O’Brien (Hunter McCracken) ao longo do que compreende da inocência da juventude ao pragmatismo da vida adulta. Primogênito dos três filhos, Hunter tem o peso da expectativa sobre seus ombros tornando-se ressentido com relação a isso. Ele vê seu severo pai (Brad Pitt) como um ditador e sua mãe (Jessica Chastain) como alguém frágil e sem autoridade perante o marido. Quanto mais Jack amadurece, mais se torna consumido pela raiva. Enquanto isso, apesar de a maioria dos eventos do dia-a-dia serem apresentados através da ótica de Jack, há capítulos separados para as perspectivas de seus pais, e a partir destes eventos percebemos as características que definem a família O’Brien. Enquanto a mãe é educadora e afável, o pai não poupa forças para se impor perante a família. Mesmo com personalidades bem distintas, ambos amam seus filhos, cada qual à sua maneira.

Apesar de nos apresentar este pequeno conto pessoal, Malick nos coloca dentro de um contexto muito maior e metafísico. O filme, ocasionalmente, mostra flashes futuros de Jack (aqui vivido por Sean Penn), que é visto caminhando de forma desorientada por uma selva de pedras e janelas, e ocasionalmente vislumbrando seres errantes através de um (metafísico) deserto. Interligado a esta narrativa, nos é apresentado um belíssimo interlúdio que retrata a origem do universo, a criação da Terra, o inicio da vida, a era dos dinossauros e o surgimento do homem (por momentos me pareceu estar assistindo a um documentário do Discovery Channel). Esse segmento parece ter sido retirado do Livro de Jó do Antigo Testamento, onde Deus responde às queixas de Jó sobre o seu sofrimento injustificado com uma pergunta retórica: “Onde estavas tu, quando eu lançava os fundamentos da Terra?” Segundo Malick sugere, este “fundamento” ocorreu em um gigantesco cataclismo, que tem a ver com a condição humana, incluindo o súbito e inexplicável elemento do sofrimento e da morte. Essas características, segundo a lógica do filme, parecem ser codificadas no DNA da existência. O que é perturbador sobre a representação de Malick sobre as origens físicas do universo em particular, embora elegantemente composto (principalmente quando da utilização de materiais orgânicos), o seu sentido primordial de mau agouro, apenas delineado pelo fundo musical. A visão de devastadoras colisões, erupções destrutivas e incessantes movimentações são assustadoras e parecem destinadas a intimidar, como se estivéssemos sendo lembrados de que a Terra (e a vida) surgiu da violência, e dada a sua origem convulsiva, a vida neste planeta poderia ter sido irremediavelmente falha desde o inicio.

Mas também há beleza nesta explosão (ou “Espírito Criador”, como queiram chamar), que está presente na graça e na gentileza da natureza. O desenvolvimento físico-orgânico-natural se mostra através de uma natureza terrestre com seu lado calmo e harmonioso (as árvores, rios, campos, nuvens). O ser orgânico parece ter, acima de tudo, uma fonte inesgotável de esperança e generosidade, mesmo nascido em meio a esse turbilhão.

Todo esse panorama da criação do universo é a visão da personalidade do próprio Jack, sobro o amor-ódio entre seus pais e os efeitos traumáticos que seus conflitos tiveram sobre as crianças, um esboço da anatomia da personalidade do pai que nos dá idéia de quem ele é.

O Sr. O’Brien carrega em si um ar autoritário e militar. Insistindo em ser chamado de “Senhor” e pune os filhos caso deixem a porta da frente bater. Ele instrui o menino sobre a dureza e a competitividade do mundo. Em um contraponto em que a Sra. O’Brien, uma cristã devota, incorpora humanidade e simpatia, tanto para os filhos, quanto para os outros. Ela brinca com seus filhos em casa e no gramado ensolarado. Jack, notando este ar de pureza e generosidade da mãe, a trata de forma similar (dentro da proporção) a forma como o pai trata a mãe.

Esse retrato da natureza humana de que nada se cria e tudo se copia, mostra um menino/homem perturbado, vagando em um mundo distante procurando compreender a si e ao seu passado, e impor alguma ordem perante o caos criado por sua mente, sem simplificar ou omitir qualquer parte dela. Ele, não entendendo as forças que o moldaram, não consegue enxergar um padrão, não sendo capaz de separar as influências que o cercam (Natureza x Graça; a Mãe x o Pai; o religioso x a evolução). É um processo continuo e inacabado. Toda a história está centrada neste homem, tudo é para ser explicado a partir desta experiência individual. Há uma passagem de Ralf Waldo Emerson que resume a filosofia que Malick trouxe para este filme:

“Existe uma relação entre as horas da vida e os tempos dos séculos, assim como o ar que respiramos é produzido pela natureza, como a luz que ilumina é fornecida por uma grande estrela a cem milhões de quilômetros de distância, como o equilíbrio corporal depende da rotação e forças centrifugas e centrípetas, por isso o tempo pode ser compreendido pelas idades e a idade mental de cada homem é uma nova encarnação.”

Todas as propriedades que existem nele nos foram apresentadas através de seus antepassados, e isso constitui uma nova geração. Toda evolução foi um pensamento de um homem seguindo os passos de outros homens, e esta é a chave para o que somos e o que viremos a ser.

Malick como cineasta e filósofo é um artista primoroso, retratando que o homem/mulher é jogado no mundo, perdido e com medo, e acaba no meio deste caminhando para enfrentar o desconhecido e a morte. A aplicação de recursos naturais, biológicos e científicos demonstra compreender a natureza inerente da vida através da agressividade, da guerra, de conflitos étnicos, desigualdade e assim por diante. Enquanto isso, a vida social possui uma base biológica (a existência física de homens e mulheres que vivem como seres naturais) que representa possuir suas próprias leis distintas e complexas. A posição e as perspectivas de cada indivíduo na sociedade não são determinadas por suas qualidades naturais, mas por sua participação em uma determinada classe e/ou relações. Os seres humanos agem sobre o mundo e alteram-no, ao mesmo tempo alternando sua própria natureza e desenvolvimento de sua mentalidade.

Infelizmente, sentem-se vários mitos clássicos refletindo o estado primitivo das relações entre as pessoas e a natureza, quando este paira sobre a humanidade, que nos leva a abranger a teoria da Origem das Espécies de Charles Darwin e o Livro do Gênesis, entre outros, incluindo Adão, Eva, Caim, Abel, Jó, Édipo e quem sabe quantos outros. A qualidade artificial do drama não se limita à falta de tempo para delinear melhor seus personagens, mas a insistência do diretor em colocar a vida real dentro de um único paradigma.

Os personagens em geral, embora possuam esse peso metafísico demasiadamente grande, em nenhum momento eixam a tela empalidecer. Pitt é tão excelente quanto é bela Jessica Chastain, mas, no entanto, é o talentoso Hunter McCracken, cuja dedicação e entrega a Jack desponta um começo tão promissor quanto se poderia esperar.

Não se pode falar de um filme de Malick sem mencionar a sua composição. Poucos cineastas vivos denotam tanta atenção à cinematografia e a música. O diálogo em A Árvore da Vida é escasso; e o compositor Alexandre Desplat (utilizando tanto material de sua própria criação, quanto diversas peças clássicas) preenche as lacunas onde podemos normalmente nos deleitar. Sua música, como as imagens do diretor de fotografia Emmanuel Lubezki, são de uma beleza em que cada frame pode ser facilmente emoldurado e exposto, além de adicionar cor e profundidade (sem a necessidade de 3-D) às emoções dos personagens. Eles enfatizam sem parecer ostensivo. A Árvore da Vida parece e soa tão sublime como o filme anterior de Malick, O Novo Mundo (The New World, 2005), mas tem uma forte ligação emocional. É muito mais do que o estilo sobre a substância.

A Árvore da Vida é um exemplo extremo de certas tendências culturais e intelectuais: a tecnologia e a imagem tem se desenvolvido imensamente nas últimas décadas, enquanto considerações e compreensão da vida social e História da Arte parecem terem sido esquecidas na última prateleira da biblioteca.

Malick faz um trabalho realmente desafiador, a partir de sua capacidade de sugerir por íntimos e intensos meios visuais, diversos efêmeros estados mentais, mas o cinema ainda terá de juntar estes elementos numa consciência dos processos sociais e históricos, e as leis para uma imersão muito mais profunda na vida: não como um esquema, mas como ela é realmente vivida.