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No dia 18 de setembro de 1983 eu nasci, e se por acaso eu disser a você que me recordo de cada momento da minha vida, trate esta informação de duas formas: 1) SURPRESA: Praticamente, é impossível que tal fato aconteça e se isso acontecesse comigo, eu ficaria surpreso e 2) DESCRENÇA: Eu não lembro de tudo, mas quem em sã consciência lembra de todos os momentos da sua vida? Impossível, certo? Mas convenhamos, é muito lindo poder lembrar.

Me lembro de alguns momentos, momentos breves, rostos e mãos curiosos que me afagavam e me beliscavam, professores com suas teorias e explicações, o recreio / intervalo e as crianças correndo, brincando ou fazendo algo que provavelmente não era permitido pelas normas escolares ou pelos pais. As risadas fáceis, o primeiro livro, as primeiras situações alheias a importância do momento e de repente todos estamos mais velhos, mais experientes mas nem por isso menos consequentes de alguns atos.

Enquanto estava nesse processo de amadurecimento e fomentando uma personalidade, tive alguns problemas além de algumas discussões mais exaltadas mas ao lembrar desses incômodos vejo que nada tinha fundamento, nem um grito, nenhuma palavra mais exaltada trouxeram algo que fosse relevante. Apenas a tristeza e a magoa.

E esses são dois sentimentos que figuram fáceis dentro de mim, sinto uma tristeza profunda por muitas razões, mas o principal é por não ter aproveitado alguns momentos para torna-los muito mais alegres possíveis. Tenho medo e dificuldades de demonstrar meus sentimentos, não estou falando da felicidade, esta não faço questão de esconder, se estou feliz com algo é claro que dou uma boa risada, isso é fácil e prazeroso. Mas sempre escondi minha melancolia e não gosto de compartilhar lagrimas e iras.

E assim tenho construído a minha vida. Ainda que não tenha chorado o suficiente.

Mas enquanto tenho experimentado de inúmeras situações envolvendo sentimentos, dentre esses um tem se destacado nos últimos anos, a saudade.

No dia primeiro de dezembro de 1995 (acho que foi esse ano), dia do aniversário do meu pai, ele recebeu certamente o mais tristes dos presentes. Minha avó estava no hospital a alguns dias, estava mal e bastante debilitada, sem saber os dias, ela sabia que o aniversário de meu pai estava próximo e tudo que ela não queria era falecer neste dia. Tirando forças de onde o ser humano ainda não descobriu sua origem, ela aguentou por mais um dia, mas sem saber que dia era esse ela não suportou e faleceu. Ela achava que havia passado o aniversário do filho com vida e agora poderia descansar em paz. A tristeza é maior pois toda nossa família presenciou a luta dela por este dia, por este único e simples dia, mas a vida não é um simples roteiro de filme. Na época não me recordo da minha reação. Mas acredito que tenha sido uma ausência de emoção, já que meu ceticismo proibe qualquer tentativa válida de negação para algo tão definitivo. A morte. Ali estava ela. Na minha frente, nua e crua. E tudo que se pode fazer com relação a ela é o imortal nada.

Anos mais tarde ela voltou a me encontrar e levar outro ser, embora não fosse um homem ou mulher era um ser humano. A Luna estava a uma semana de completar 12 anos de vida. Mas em virtude de problemas de saúde e um câncer ela veio a falecer. Enquanto com a minha avó eu não houvesse chorado, com a Luna eu acho que nunca chorei o suficiente, ela era, como eu costumava a dizer, a minha vida. Sinto falta da companhia dela, de toda a manhã que ela saia do quarto da minha mãe e pulava na minha cama para dormir aos meus pés ou quando não me acordava nos dias de frio com patadas na minha cabeça para faze-la entrar em baixo das cobertas.

Duas injeções. Isso foi o suficiente.

No día 2 de fevereiro de 2011, eu embarquei para, até então, o meu maior desafio. Mudar de cidade e principalmente de país. No momento em que meus pais me deixaram no aeroporto eu vi em seus olhares a tristeza contrastar com a alegria. A sensação de perda, da separação foi muito mais forte neles do que em mim. Pois até o momento eu não havia me dado conta do que eu estava deixando para trás.

Foi só no dia 7 de setembro que eu fui ter essa sensação. Reencontrar meu irmão em Paris não foi um simples estado de alegria, foi algo maior. Foi como reencontrar uma parte de mim, reencontrar o meu verdadeiro amigo. Aquele que sempre esteve presente nos bons e maus momentos. Conversar sobre frivolidades e assuntos pessoais é um atrativo a parte. O Be é uma pessoa sorridente, mas muito centrada, sempre tem uma piada na ponta da língua, talvez algumas não tenham a menor graça, mas ele sabe deixa-las engraçadas, embora algumas dessas piadas possam render momentos de constrangimento.

Amigos hoje em dia são difíceis de se encontrar. Muitas pessoas hoje em dia estão mais preocupadas com picuinhas, intrigas e reclamar de banalidades da vida. E um verdadeiro amigo logo é uma raridade. E o meu irmão é um amigo que sempre está presente no momento que você menos espera, um sujeito boa praça e de confiança indubitável.

Nos momentos em que eu estive com ele, lembrei de muitos momentos agradáveis e me admirei rindo sozinho disto. E neste momento eu desejei que o tempo passasse mais devagar, de forma que eu pudesse saborear cada segundo que eu estava com meu irmão. Mas o tempo é sádico.

13 dias se passaram sendo 8 na presença de meu irmão, entre esses duas despedidas. Na primeira eu levei ele até o vagão número 8 na estação de Lyom em Paris com destino a Grenoble. A minha estada nesses dias em que fiquei sozinho foi como se atravessasse um grande abismo por uma ponte tão fina e delicada quanto o vidro é para a pedra. Eu não sabia o que fazer e como fazer, tracei um novo rumo e decidi passar o meu aniversário com ele, alterei passagens e rumei sem ele saber para Grenoble. O prazer de estar na presença dele foi o melhor presente que ganhei em tempos. Mas veio a segunda despedida e desta vez ele me levou a estação para pegar o trem de Grenoble com destino a Paris. E foi muito amargo, pois as despedidas são amargas. A distância física é o que faz a diferença e compartilhar um último abraço mostra como o tempo as vezes pode ser benevolente.

A vida ganha mais valor quando algo assim acontece. Passar um minuto. Escutar uma simples piada. Ou partilhar um último abraço com quem você realmente gosta. Faz com que esses momentos fiquem eternizados. Não nos anais da história mundial, mas aonde realmente importa. Dentro de nós mesmos.

Obrigado a minha família por tudo. Amo muito vocês.

(P.S.: Talvez o texto soe estranho, mas o meu irmão está vivo e bem e assim continuará por muito tempo.)