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MEIA-NOITE EM PARIS (Midnight in Paris, 2011)

ESPANHA/EUA, 2011 – 100 min.

Direção: Woody Allen

Roteiro: Woody Allen

Elenco: Owen Wilson, Marion Cotillard, Rachel McAdams, Carla Bruni-Sarkozy, Michael Sheen, Nina Arianda, Alison Pill, Tom Hiddleston, Kathy Bates, Corey Stoll, Kurt Fuller, Mimi Kennedy

Houve realmente uma idade de ouro? Se sim, as pessoas sabiam disso naquela época? As pessoas são capazes de reconhecer uma idade de ouro quando estão no meio de uma? Para Woody Allen, talvez em função do seu gosto musical e cultural percorrer as décadas de 20 e 30, estas questões têm alimentado provavelmente incontáveis devaneios. De tempos em tempos, eu sucumbo a esses devaneios, de como eu poderia ter vivido durante uma época diferente, talvez uma época mais simples. O cineasta Woody Allen, cujo cinema muitas vezes incorpora mais de uma pitada de nostalgia, imagina o que aconteceria se esse desejo se tornasse realidade no seu novo filme Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris, 2011). Uma criação estranha e encantadora, essa produção não chega a ser um puro drama tão pouco uma comédia. É muito sutil ao evocar emoções mais do que uma moda passageira e seu humor é gentil e discreto. Além disso, Meia-Noite em Paris é um conto de fadas. O filme é construído de tal forma que a não é muito difícil criar uma suspensão de descrença porque há algo universal no que Allen explora.

Gil (Owen Wilson) e Inez (Rachel McAdams) estão tirando férias em Paris às vésperas de seu casamento. Não é preciso muitas cenas para notarmos que, como um casal, eles são incompatíveis. Ele é um cara simples que sonha em viver uma vida boêmia. Apesar de ser um roteirista de sucesso, ele anseia se mudar para Paris e escrever um romance – uma noção que a materialista Inez zomba. Uma noite, em vez de sair para dançar com sua noiva e seu amigo “pedante” Paul (Michael Sheen), Gil opta por caminhar pelas ruas de Paris. Pouco depois da meia-noite, um taxi da década de 20 para, de dentro saem F. Scott Fitzgerald (Tom Hiddleston) e Zelda Fitzgerald (Alison Pill) e eles o levam para uma festa. Embora a princípio o escritor ache que estes são Fitzgeralds falsos e que ele está em uma festa à fantasia, ele logo percebe que tudo é real. Ele está cercado pela música e estilos que ele ama e está misturando-se com seus ídolos e heróis artísticos. Ele encontra-se transportado para uma outra época na companhia de F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway (Carey Stoll), Gertrude Stein (Kathy Bates) e a sedutora Adriana (Marion Cotillard). Antes do amanhecer, Gil encontra-se de volta ao mundo moderno, porém a sua viagem no tempo ainda não terminou.

O deslocamento do nosso herói mantém o filme tão leve quanto ele precisa ser. Conhecer as celebridades de hoje em dia é um pouco estranho, mas conhecer as lendas do passado – a ânsia de agradar essas pessoas seria esmagadora. Mas sempre há uma ponta de pungência, também, porque você está olhando para a década de 20 através dos olhos de uma pessoa moderna, de como um mundo que é atualmente, para uma definição do que foi no passado. O passado sempre será romântico porque ele foi embora, assim como o futuro é sempre assustador porque você não sabe para aonde ele vai.

Há uma ideia sobre Paris que funciona aqui também. Allen toma a noção do que eram as ruas no passado e as torna literais, para que nada do que tenha acontecido nesta cidade vá embora. É um sentimento de mundos paralelos, que às vezes sentimos quando visitamos cidades com grandes histórias.

Para a maior parte, a história de Meia-Noite em Paris é pouco exigente, especialmente para aqueles que estão familiarizados com os contos de viagem no tempo (aqueles que acompanham o seriado Doctor Who, sabem qual o nível de “ficção científica” sobre a qual reside Meia-Noite em Paris). Nenhuma tentativa de explicar o mecanismo pelo qual Gil viaja em seu túnel do tempo, ele simplesmente acontece. Isto é apropriado, já que aplicar qualquer tipo de razão para a “magia” em sua maioria se mostra forçado e geralmente parece bobagem. Meia-Noite em Paris é cercado de humor e emoção. Allen frequentemente emprega longas e ininterruptas tomadas, ele nos tornando moscas, nos guiando com sua câmera itinerante. A Paris do filme é a cidade dos cartões postais e filmes românticos. Allen abre o filme com imagens de muitos pontos turísticos famosos e de como um dia nublado dá lugar a uma noite chuvosa.

A produção consegue chegar ao nível dos grandes filmes de Allen, coisa que tem sido rara nesses últimos anos. É divertido e tão envolvente quanto e provavelmente muito mais agradável do que a maioria das recentes obras do cineasta. No entanto, as filmagens na Cidade Luz podem ter inflamado os instintos visuais de Allen, suprimido os seus diálogos e silenciado sua sagacidade, o que talvez tenha faltado para criar um roteiro superior. Talvez Meia-Noite em Paris seja a realização dos sonhos de Allen e o pensamento de tantos literários e artísticas em um único lugar resultando num nível incomum de beleza e respeito.

Owen Wilson em Meia-Noite em Paris é a melhor versão de Woody Allen depois dele mesmo. Ocasionalmente, pode-se quase ouvir Woody falando algumas linhas dos diálogos. Gil, entretanto, não é um neurótico, o que contribui para uma mudança agradável, o que permite seu caráter ser mais simpático do que os usuais protagonistas num filme de Allen. Gil tem dois interesses amorosos. A do presente, sua noiva Inez, é interpretada por Rachel McAdams, com todo o encanto de uma serpente (ou de Katherine Heigl). E Adriana (Marion Cotillard), no entanto, é o tipo de musa sedutora que pode fazer com que qualquer pessoa pense em desistir de qualquer benefício ou comodidade tecnológica e moderna. Muitos dos artistas secundários – Kathy Bates como Gertrude Stein, Adrian Brody como Salvador Dali, Carey Stoll como Ernest Hemingway – roubam a cena. Allen soube aproveitar o melhor desses atores conforme eles entram na pele destes ícones. Ele também dá a primeira-dama da França, Carla Bruni, uma pequena brecha (Ela é a guia que traduz o diário de Adriana para o inglês).

Algo estranho sobre Meia-Noite em Paris é a insistência do diretor sobre querer tornar o filme um verdadeiro conto de fadas, dando-lhe uma moral. A mensagem, que tem a ver com estar contente no presente, não fica apenas no subtexto à espera de ser descoberto por um espectador atento. Em vez disso, ele é transmitido com toda a sutileza de um elefante usando saia numa plantação de morangos.

Paris está perpetuamente viva, não porque abriga os fantasmas de mortos famosos, mas porque é o repositório e registro de todo seu trabalho. E o propósito de tudo o que foi velho não é nos levar ao passado, e sim nos animar a viver o presente. Allen disse muitas vezes que não quer ou não espera que o seu trabalho sobreviva ao tempo, mas com algo tão modesto e alegre como Meia-Noite em Paris, ele sugere o contrário: não uma ambição para a imortalidade tanto como uma vontade de deixar algo marcado, mas algo que chame a atenção e solicite a admiração de andarilhos solitários em dias chuvosos em algum tempo futuro.

[Suspiros] “Nada melhor que andar pela cidade num dia de chuva.”