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TUDO PELO PODER (The Ides of March)

EUA, 2011 – 101 min.

Direção: George Clooney

Roteiro: George Clooney, Grant Heslov e Beau Willimon, baseado na peça “Farragut North” de Beau Willimon.

Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright.

 Quando um thriller político é chamado de Tudo Pelo Poder (The Ides of March, 2011), é seguro pressupor que não irá comemorar os prazeres e a graça de um bom mandato. Tudo Pelo Poder ilustra a obviedade universalmente reconhecida de que nada pode corromper o idealismo mais que a política. O ponto triste sobre toda essa história americana é o fato de que nenhum momento de traição ou reviravolta é difícil de se aceitar. Não há suspensão de descrença ou obstáculos para tal. A sensação de verossimilhança com qualquer eleição governamental e presidencial no mundo é tal, que se não fosse pela edição e os cortes, ele poderia facilmente ser um documentário. Os acordos de bastidores e os truques sujos representam a política mundial atual como ela é e não como deveria ser. Tudo Pelo Poder se mostra um filme puramente cínico, e nessa medida de cinismo ele encontra a verdade.

O titulo em inglês “The Ides of March” ou “Os Idos de Março”, faz alusão à traição e assassinato de Júlio Cesar. Há também uma razão mais prosaica para o nome, “Os Idos de Março” se refere a uma data especifica, 15 de março, que é o dia crucial sobre o qual focam os eventos do filme. Nesta realidade, 15 de março é a data da votação em Ohio, quando o governador Mike Morris (George Clooney) tem esperança de vencer o seu adversário e reivindicar a nomeação democrata para a candidatura a presidência.

Auxiliando-o a prosseguir com este objetivo estão o seu diretor de campanha Paul Zara (Philip Seymour Hoffman) e seu estrategista chefe Stephen Myers (Ryan Gosling). Myers é uma estrela em ascensão nos bastidores políticos e seu talento é cobiçado pelo seu oponente, Tom Duffy (Paul Giamatti). Mas nem tudo é sobre ganhar as eleições de Ohio, obter também o aval do senador Thompson (Jeffrey Wright), um político primário com mais de 300 delegados, poderia colocar Morris em uma posição inatacável, caso contrário deixaria este como vice do senador Pullman, caso Thompson se inclinasse nesta direção. O endosso vem com um preço – Secretário de Estado – que Pullman parece disposto a aceitar, enquanto Morris não. A partir de um telefonema recebido tarde da noite pelo celular da bela Molly Stears (Evan Rachel Wood), estagiária de campanha que está compartilhando a mesma cama com Myers, ele descobre um segredo muito obscuro.

Clooney, que co-escreveu o roteiro (baseado na peça teatral “Farragut North” de Beau Willimon) e dirigiu, compartilha da mesma visão sombria do processo político. Embora a posição política do personagem seja progressista/liberal, o filme trata muito mais sobre o que é preciso para alcançar o poder do que sobre a plataforma do candidato. Apesar de não ser um ponto original, Clooney mostra que quando se trata dos mecanismos pelos quais uma campanha é executada, excluindo os partidários de PT e PSDB, existe pouca diferença entre republicanos e democratas. A política é um jogo – um jogo sujo, um jogo onde quem consegue se corromper mais se sobressai, mas neste jogo até o vencedor muitas vezes perde. Promessas são as moedas do jogo, usadas para captar votos que são convenientemente ignorados uma vez que as eleições acabam. Clooney mostra que não é um otimista com olhos arregalados vislumbrando um futuro palpável, pelo contrário, seu sentimento de desilusão é profundo.

Tecnicamente Tudo Pelo Poder é um suspense, ainda que sem uma única tomada que poderia ser considerada uma cena de pavor. Mas na verdade, a primeira metade do filme oferece um vislumbre diretamente por trás das cortinas da campanha de Morris. Os personagens, suas preocupações e seus relacionamentos são desenvolvidos durante este segmento, que serve muito para que quando as traições e a tensão aumentarem, entendamos suas implicações. Durante boa parte da trama, Clooney conduz a nós espectadores como marionetes, fazendo-nos temer como se estivéssemos assistindo a uma fábula tensa de traição e suspense, seguindo a tradição das paranoias políticas dos anos 70: Paralax View, Todos os Homens do Presidente, por exemplo. E Tudo Pelo Poder não faz um mau trabalho de pesquisa, o tom e a textura desse tipo de filme apresenta um aspecto sujo com interiores mal iluminados e tensos cortes furtivos. Mas apesar da incerteza quanto ao eventual ponto final da narrativa, o longa permanece de alguma forma estático e sem vida, como um diorama clássico determinado através de estratagemas.

O peso e a escolha do elenco de Tudo Pelo Poder demonstra o cuidado que o filme recebeu. Dos seis membros principais do elenco – Gosling, Clooney, Hoffman, Giamatti, Tomei e Wood – combinados possuem onze indicações ao Oscar sendo três vencedores. Os papéis secundários são preenchidos por bons coadjuvantes, incluindo Jeffey Wright e Jennifer Ehle (como esposa de Morris).

Como protagonista, Gosling é o único a ter seu personagem melhor desenvolvido, é aquele que atravessa o arco narrativo mais completo. Myers trilha uma espiral complexa em lugares obscuros de acordo com seu recente e elogiado trabalho em Drive. Ele tem um momento maravilhoso quando confrontado com uma decisão fatal. A próxima cena é silenciosa, num plano médio dele andando pela rua, e pela cadência de seu andar sabemos a escolha que ele fez. Mas ele também está cercado por um elenco que habilmente desempenha de forma excelente sua função de apoio: Clooney, como o sincero e simpático político do futuro; Hoffman como o veterano de campanha que preza a lealdade acima de tudo; Giamatti como o adversário político que perdeu a maior parte da sua humanidade ao longo do caminho; Tomei como a repórter que consegue os “furos de reportagem” através de trocas de favores e Wood como a jovem estagiária cujo idealismo pode ser a cobertura para algo ainda maior. O rico alicerce fundado pelos personagens funciona de forma que sustenta e auxilia a toda atmosfera política.

Fotografado pelo versátil Phedon Papamichel, Tudo Pelo Poder começa com uma imagem particularmente potente. Logo no início, o filme abre com uma tomada contra a luz, Myers sai da escuridão para a luz do palco e começa a fazer um discurso de campanha, mas algo parece errado, a apresentação é fora de tempo e sem emoção. A trilha composta por Alexandre Desplat é sugestiva e demonstra através de suas pontuações as sutilezas através de cada novo diálogo, sendo essas conversas visíveis ou invisíveis.

Mas infelizmente, o tema que Tudo Pelo Poder (e por que não dizer Tropa de Elite 2) relata e afirma acaba demonstrando o quão cansado o eleitor está, mas denota também que o poder de mobilização para mudança é de apenas um pequeno nicho de pessoas, enquanto outras preferem continuar a serem enganadas por falsas promessas. Pretendendo-se como se estivesse chamando o espectador a despertar, a tela escurece e no final, ficamos imaginando se o personagem “vencedor” realmente ganhou e o que isso implica no mundo real, uma vez que ficções como esta são apenas reflexos imperfeitos do que realmente acontece.