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SHERLOCK HOLMES: O JOGO DAS SOMBRAS (Sherlock Holmes: The Game of Shadows)

EUA e Reino Unido – 129 min

Diretor: Guy Richie

Roteiro: Michele Mulroney, Kieran Mulroney

Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Noomi Rapace, Jared Harris, Stephen Fry, Rachel McAdams

Pode um filme ser hiperativo e preguiçoso ao mesmo tempo? Se a resposta for positiva temos em Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras (Sherlock Holmes: A Game of Shadows, 2011) uma boa definição para esta resposta. Foi-se embora o combate ao crime de forma inteligente e ardilosa que marcaram todas as aventuras literárias do detetive criado por Sir Arthur Conan Doyle. No seu lugar, um steampunk de explosões, tiroteios de alto calibre, artes marciais e a marca para um novo estilo de relacionamento entre Holmes e Watson. Mas ainda assim, graças aos desempenhos de seus protagonistas, o filme é divertido, ou pelo menos cumpre seu papel como entretenimento.

Próximos dos 120 anos desde que Sir Arthur Conan Doyle introduziu o Professor James Moriarty em “O Problema Final”, o personagem se tornou uma obsessão entre os fãs. Um homem equivalente a Holmes, Moriarty é o contraponto perfeito para o detetive – um brilhante matemático cuja inteligência coincide com a do seu adversário. Moriarty apareceu em apenas uma das 60 histórias de Sherlock Holmes (o já mencionado “O Problema Final”), mas tornou-se um louro para as deduções de Holmes. Faz sentido, portanto, que Guy Ritchie trouxesse Moriarty para a tela – qual o melhor rival para a encarnação do detetive de Robert Downey Jr. que um homem que pode se igualar a ele em dedução, estratégias e habilidades físicas?

O Jogo das Sombras não é uma adaptação de “O Problema Final”, embora tome emprestado elementos da história. Fechando os buracos deixados na colcha de retalhos que foi a narrativa do filme de 2009, o filme abre com Holmes e Moriarty (Jared Harris) duelando, embora (ainda) não diretamente. Isso muda quando Holmes começa a interferir nos planos nefastos de Moriarty. O plano articulado pelo mestre criminoso é invisível para Holmes, mas os resultados imediatos não. Ele está usando anarquistas e um ex-militar para realizar assassinatos. Além de também estar utilizando a “mulher ideal” de Holmes, Irene Adler (Rachel McAdams), como mensageira; Moriarty fica descontente quando ela falha em uma missão graças a intervenção direta de Holmes. Enquanto isso, Dr. John Watson (Jude Law), assistente e único amigo de Holmes, está prestes a embarcar em sua aventura matrimonial com sua amada Mary (Kelly Reilly). Para celebrar o iminente casamento, Holmes (em seu dever como padrinho) organiza uma “despedida de solteiro” para Watson, que envolve a empresa do irmão mais velho de Holmes, Mycroft (Stephen Fry), e muita bebida. Enquanto Watson joga cartas, Holmes visita a cigana Simza (Noomi Rapace), que pode ter conhecimentos sobre os planos de Moriarty.

Tal qual seu antecessor, Sherlock Holmes: O Jogo das Sombras confecciona um mundo nublado e denso a Londres vitoriana, infundido num ar juvenil e jocoso, com uma estilosa câmera lenta. Há um enredo, mas não há intriga, mistério ou suspense. Pior que isso, nenhum indício de qualquer coisa em jogo além de uma ideia infantil e beligerante de diversão.

A assinatura e o estilo cinematográfico de Ritchie está em evidência, mas não é tão avassalador quanto no primeiro filme. Ele utiliza em demasia cenas com a já mencionada câmera lenta, demonstrando detalhadamente o avanço mental da coreografia de luta de Holmes; o exemplo mais inventivo desta ocorre num dos pontos altos do filme ou durante uma perseguição através da floresta, onde explosões e balas zunindo são mostradas batendo e destruindo árvores e seres humanos de forma deliciosamente prolongada.

Mas é triste evidenciar o Detetive criado por Arthur Conan Doyle, que teve sua personalidade atualizada, travestida e reconstruída tantas vezes e em absurdos contos – inclusive pelo próprio Doyle – que é bobagem que tentem manter seu caráter sagrado, ou menosprezar o trabalho de Ritchie na liberdade criativa adotada pelo diretor. Mas você poderia pensar que um homem com tamanho brilho, renome tal qual sua erudição (estou falando de Holmes) seria um personagem mais intelectualmente dedutivo do que ao invés de um lutador de MMA. E você também poderia pensar que um confronto entre Holmes e seu arqui-inimigo, Moriarty, envolveria suspense, intriga e diálogos interessantes. Ao invés disso o diretor revigora o personagem substituindo o detetive por um homem tão perigoso fisicamente quanto mentalmente, além de evidenciar seu caráter humorístico.

A respeito das atuações do elenco principal, Downey Jr. encontrou um ritmo para seu Sherlock. Ele parece estar mais relaxado e adaptado ao papel. Jared Harris,  a princípio uma escolha estranha para o Moriarty, proporciona um rival a altura de Holmes. Noomi Rapace destoa completamente de sua Lisbeth Salander, seu papel mesmo que superficial permite a ela mostrar seu talento. E por fim, Jude Law retorna como o seu confiável e seguro Watson.

O Jogo das Sombras cumpre seu papel de blockbuster e pode se resumir em inúmeras e interessantes cenas de ações, mas no final é “elementar” meu caro amigo, que resumir o intelecto dedutivo e peculiar de Holmes a apenas músculos e explosões fica muito distante do que fez dele o maior detetive de todos os tempos.