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MILLENNIUM – OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES (The Girl With the Dragon Tattoo)

EUA, Reino Unido, Suécia, Alemanha – 158 min

Diretor: David Fincher

Roteiro: Steven Zillian

Elenco: Daniel Craig, Rooney Mara, Christopher Plummer, Stellan Skarsgard, Steven Berkoff, Robin Wright.

A Suécia é um país frio onde vivem pessoas frias e calculistas, logo, o lugar perfeito para o novo filme do diretor David Fincher. A escuridão que contorna Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo, 2011) escoa da tela como se fosse algo vivo e viscoso que evidencia a marca do diretor num filme sobrecarregado de possibilidades e expectativas. Auxiliado pelo roteiro bem construído por Steven Zillian adaptando o best-seller mundialmente famoso criado por Stieg Larsson, Fincher forma uma estrutura narrativa inconfundível, mas não uma cópia em carbono da obra sueca ou do próprio livro. Um bom exemplo de como uma adaptação deve ser, respeitando as bases narrativas, mas cujo conteúdo possa ser identificado através das imagens que se desdobram na tela.

Quando no inicio de 2010 a “Columbia Pictures” anunciou a intenção de refilmar Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (Män Som Hatar Kvinnor, 2009), a questão que veio logo em seguida foi o eterno e ressonante, “Por que”? Afinal a versão sueca de 2009 dirigida por Niels Arden Oplev e estrelada pela atriz Noomi Rapace é uma adaptação excelente do conteúdo literário. Seja qual for a motivação por trás da refilmagem, dinheiro ou preguiça de ler as legendas, essa interpretação da história escrita por Larsson pode ficar orgulhosamente ao lado da versão sueca. Ambos os filmes contam a mesma história, mas há diferenças suficientes – algumas sutis, outras mais significativas – para que cada filme possa ser apreciado dentro de suas propostas. E, embora Oplev sempre tenha a distinção de ter sido o primeiro, os pontos fortes do filme de Fincher provam que o primeiro nem sempre é o melhor.

Cada composição, nota musical, olhar furtivo ou o brilho do metal (seja um anel de brilhantes, um piercing nos mamilos ou um instrumento de tortura) tem seu propósito para a história ou acrescenta algum outro detalhe narrativo. Tal como acontece com outros filmes do diretor (Se7en – Os Sete Crimes Capitais e Zodíaco). Estamos nas terras da psicopatologia desenfreada em um mundo quase além da salvação. Um terreno emocionalmente áspero, onde floresce a crueldade e sufoca a compaixão, o filme poderia ter amolecido e adoçado um pouco a história, mas este não é o estilo do cineasta. Fincher é atualmente um dos diretores com menor apelo sentimental em Hollywood. E se há algo em seu filme que é mais que a versão sueca, é por ele ser mais sombrio, sujo e violento.

Se Os Homens Que Não Amavam as Mulheres representa a visão de Fincher sobre a natureza humana (e, considerando a escuridão de seus primeiros filmes, o que pode ser o caso), ele o coloca ao lado de David Lynch como alguém que acredita que a sociedade é podre e corrupta. Esses elementos estão no coração do filme e, apesar de momentos ocasionais de humor (negro), Fincher permite que eles se exponham.

O roteiro de Zaillian, vencedor do Oscar por A Lista de Schindler (The Schindler’s List, 1993), traz um trabalho melhor amarrado do que o escrito por Nikolaj Arcel e Rasmus Heisterberg na complicada trama de Larsson. Para ser justo com os escritores da versão sueca, dos 180 minutos originais, 28 minutos tiveram de ser removidos na transição da minissérie televisiva para o cinema, e parte disto a razão para o seu tom por vezes errático e sem continuidade. Ainda assim, Zaillian foi cirurgicamente preciso ao alterar o livro de Larsson para a tela, cortando, acrescentando e alterando sempre que necessário. O resultado final é um coerente mistério de assassinato bem desenvolvido, que não é apressado e tão pouco lento. Ele também nos dá tempo para conhecer e nos relacionar melhor com os dois personagens até eles se conhecerem. Até então, suas histórias são mantidas em separado para melhor esclarecer os seus lugares na narrativa em geral, e para fornecer um forte senso de quem são eles (ao invés de apenas um casal). Uma vez que eles se encontram, eles começam a compartilhar a tela com frequência suficiente para gerar um frisson peculiar.

O desonrado jornalista Mikael Blomqvist (Daniel Craig) é trazido a uma comunidade numa ilha ao norte da Suécia para uma reunião com o aposentado milionário Henrik Vanger (Christopher Plummer). Henrik gostaria que Mikael investigasse um assassinato que marca mais de 40 anos – um “caso frio” que o tem assombrado por metade de sua vida. Em 1966, a sobrinha de Henrik, Harriet, foi assassinada, porém seu corpo nunca foi encontrado. Seu assassino nunca foi descoberto, mas Henrik delimita seus suspeitos num pequeno círculo: sua família (um grupo de pessoas estranhas, descontentes e nazistas). Depois de assumir o cargo, Mikael recruta a hacker antissocial Lisbeth Salander (Rooney Mara) para ser sua assistente. Lisbeth, um gênio da informática e da pesquisa, prova seu valor inestimável junto a Mikael descobrindo e interpretando as pistas que os levam mais ao centro da intrincada teia de aranha.

O personagem central do filme é Mikael. Lhe é concedido mais tempo de tela e é estabelecido como um protagonista convencional. Ele é interpretado por Daniel Craig, mas  não é o indivíduo mais interessante para preencher a tela durante os 158 minutos, enquanto o filme se desenrola. Essa distinção pertence à Lisbeth Salander, a gótica, emocionalmente cansada e tristemente brilhante cujo passado atormentado é escondido debaixo de um figurino de piercings e tatuagens. Lisbeth é um daqueles personagens que chama a atenção do público. Interpretada por Rooney Mara, ela é uma menina-criança presa no corpo de uma mulher cujos momentos de raiva são terríveis de se ver. Ela é ao mesmo tempo fria, impenetrável e desesperadamente frágil. Considerando a maneira como Mara retrata Lisbeth, a performance memorável de Noomi Rapace parece quase convencional. Comparar as duas é inútil – ambas são muito boas e muito diferentes – mas a Lisbeth de Mara é às vezes mais simpática e também mais impiedosa.

Craig, auxiliado pelo roteiro, dá conta de Mikael. Mas, infelizmente seu personagem é tão triste e desinteressante como o monocromático céu da Suécia. Ele em nenhum momento é tão cativante quanto Lisbeth, mas também não chega a ser ofuscado pela sombra dela. A relação quase romântica que se desenvolve entre os dois é mais intrigante do que no filme sueco. Aqui, seu investimento emocional é desigual, como Mikael vê nela um relacionamento casual, Lisbeth encontra talvez pela primeira vez em sua vida algo relativo a um relacionamento.

O elenco de apoio inclui nomes conhecidos como Christopher Plummer (como Henrik), Robin Wright (como Erika Berger co-editora na revista Millennium), e Stellan Skarsgard (como o sobrinho de Henrik, Martin). E os menos conhecidos, Steven Berkoff (como advogado de Henrik, Frode) e Van Wageningen Yorick (como o detestável Bjurman). À exceção de Craig não há “estrelas” neste misto de atores, mas o elenco é muito bem escolhido. Todo mundo faz um excelente trabalho, e Mara, sem dúvida, que compreendeu sua personagem tanto física quanto mentalmente, é a que mais se destaca no filme.

Não surpreende que Fincher tenha conseguido assegurar uma classificação etária alta para um filme cujas cenas de sadismo sexual e as relações sexuais consensuais são tão gráficas. Fiel à sua palavra, o diretor não suaviza, e essas cenas são tão gráficas (se não mais) na produção norte-americana quanto na sueco. Num dos primeiros trailers de Os Homens Que Não Amavam as Mulheres se anunciava este como sendo o “filme desagradável da temporada”, e há alguma verdade nisso. Esta não será a experiência mais feliz do ano nos cinemas, mas seu poder cumulativo de provocar e seduzir é inegável. É como uma visão sombria que se pode ter da humanidade, oferecendo um mistério compulsivamente atrativo e cujos padrões – indícios, pistas falsas, um número limitado de suspeitos – acrescenta ao seu quociente de entretenimento. Este é um filme que pode ser apreciado inúmeras vezes. Há uma abundância de suspense e tensão em seu DNA.

Como é usual nas produções de Fincher, cada frame é composto com cuidado. O diretor de fotografia Jeff Cronenweth capta a frieza do clima e da distância do campo de forma tátil para complementar a natureza fria e distante dos personagens. A trilha composta por Trent Reznor e Atticus Ross carregando ecos do seu trabalho em A Rede Social (The Social Network, 2010), conduz o terror e a sensação de emergência de forma dinâmica, estabelecendo um clima ricamente perturbador e dissonante. Além da visceral e impactante cover de Led Zeppelin “Immigrant Song” interpretada pela cantora Karen O, durante a insana abertura.

Os Homens Que Não Amavam As Mulheres faz parte de uma franquia de livros criada por Larsson. A franquia compreende mais dois livros: A Menina que Brincava com Fogo e A Rainha do Castelo de Ar. Ambos os livros foram adaptados numa minissérie sueca. E, embora o filme não deixe um final em aberto para continuação, acredito que Fincher gostaria de fazê-las, embora o desempenho da bilheteria mundial do filme certamente irá ditar o rumo dos acontecimentos. Particularmente, gostaria de uma continuação envolvendo a mesma equipe e desenvolvendo o conteúdo violento, depressivo e obscuro dos livros, além de ver a beleza e o coração gelado da Lisbeth de Rooney Mara.