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Felipe avistou um homem sentado e chorando de forma compulsiva num banco próximo a fonte, até o presente momento nunca lhe havia passado pela cabeça perguntar ou abordar alguma pessoa que estivesse nesta situação, mas havia algo neste homem que o questionava, então decidiu perguntar qual o problema que afligia o velho senhor. O cenário contrastava com a beleza do dia. O senhor sentado, com as costas curvadas, os cotovelos descansando sobre os joelhos e as mãos servindo como mascara para esconder as lagrimas. Ao seu lado, tal como um companheiro inseparável estava seu chapéu de Panamá. Felipe sentia tristeza ao ver aquele homem. E a pergunta que persistia em sua mente era por que ele chorava num dia como este?

Ele se aproximou, segurando uma cópia do exemplar de Zero Hora do dia. Os sons dos gritos das crianças brincando excitadamente, os carros e ônibus demonstravam a pressa rotineira. Mas no instante, tudo que vinha aos seus ouvidos era a lamuria vinda deste homem de cabelos grisalhos.

Sentando-se próximo do velho. Felipe sentiu uma fragrância de perfume atrativo, porém  havia em sua essência algo que todos os idosos tem em comum.

“Está tudo bem com o Senhor?” Perguntou gentilmente Felipe.

Enxugando as lagrimas dos olhos e limpando a face com um pedaço de pano, ele olhou para o lado de onde veio a voz. O tempo não havia sido caridoso ao velho, pensou Felipe, sua pele parecia da de um pergaminho a muito esquecido. Aparentava ter uns oitenta anos, mas Felipe não se surpreenderia se fosse menos. O velho mantinha uma barba tão branca quanto a neve, os dentes amarelos evidenciavam os incontáveis anos de fumante, além da cor alaranjada na ponta dos dedos. Numa rápida analise da situação Felipe concluiu que de tanto fumar o velho havia sido diagnosticado com câncer nos pulmões ou algo do gênero.

Ainda com a voz embargada, o velho soluçou um pouco e disse: “Garoto, se eu lhe contasse, acredito que você não teria a paciência para me escutar. Então é melhor você pegar as suas coisas, ir para a sua casa e aproveitar ao máximo as pessoas que você tanto ama. Pois, o tempo passa, passa tão rápido que ninguém percebe.”  E o velho voltou a chorar. Parecia que o mundo estivesse por acabar. E na verdade, pensou Felipe, isso não estava tão longe da verdade.

Insistindo em ser amigável e gentil com o velho ancião, Felipe ofertou a companhia de seus ouvidos. “Não compreendo a sua situação senhor, veja este dia por exemplo, as crianças estão se divertindo com seus pais, os cachorros estão a correr de forma livre e divertida. Não há mal no mundo que não seja irremediável.”  Ao dizer aquelas palavras, Felipe sentiu-se mais velho que o senhor, pois sentia que era o velho que deveria falar palavras de conforto para a juventude e não o oposto.

O velho respirou profundamente e como se houvesse uma multidão ao seu redor falou como se estivesse discursando: “A muito tempo estou sufocado sob a tristeza, o que eu posso fazer para fazê-la perceber – A ausência de ar é tanta que estou me afogando. Qualquer coisa que me faça lembrar dela me destrói; estas lágrimas apenas mostram o quanto eu não suporto mais esta situação. Passado a existência, permanece o passado. E eu estou me afogando nas minhas próprias lagrimas e no meu próprio sangue saindo de uma ferida que nunca cicatrizou. As minha mãos já não me suportam, tudo o que eu toco parece morrer; detesto ficar perto de pessoas, porque conforme o tempo passa é que percebemos que a vida parece dar errado. Desculpe alugar seus ouvido meu jovem,  mas nunca tive alguém ou nunca me arrisquei a compartilhar os meus próprios problemas, e tão pouco sentar-se e senti-los também. Essa dor é tão previsível. Eu posso sentir isto vindo, mas é lindo, eu não faço nada sobre isso. Basta deixá-lo permanecer na minha vida até que ela destrói todas as pontes que eu havia construído, além de tudo que já fiz. O que eu quero de mim? Me pergunto. Me sinto encapsulado, me sufocando num forte abraço. Está no plano de jogo me enclausurar dentro de uma concha, até ninguém mais saber de mim? Para afastar-me de tudo que já fiz e amei. O que eu fiz de errado? Por que eu? Nós dois sabemos ou gostamos de pensar que planejamos tudo, mas até que ponto? Ninguém jamais se importo de qualquer forma. Estou apenas apodrecendo. Mas não espero que alguém venha me salvar dos meus próprios problemas. Eu os criei. Eu só gostaria de ter alguém que entendesse. Estou farto de viver uma mentira. Eu sou muito dependente dos outros, eventualmente eles vão morrer também, e quando esse dia chegar, eu nunca vou esquecer e nunca me perdoar. Num olhar ele está lá, mas no próximo já se foi.”

“O que eu fiz para sentir essa dor apreensiva? Não importa a forma como eu a descreva, eu não posso fugir dela. Sempre que me afasto dos lugares eu penso que posso junto afastar meus problemas. Mas não importa o quão longe você está, nunca está distante o suficiente para eles desaparecerem. É como se eu estivesse preso a um ioiô humano e este estaria desfrutando enquanto espera eu me recuperar. Oh, por que isso não para, antes que isso acabe me matando. Estou muito fraco para me regenerar, eu sou muito egoísta para querer mudar. Será que a minha vida vale tão pouco assim?. Quando ela não estava lá eu orava para que Ele me deixa-se estar ao seu lado. Mas Ele apenas me observa como se fosse a mais insignificantes das formigas. Os relógios assistem eu virar cinza. Acompanham o apodrecimento da minha carne. Eu sinto que estou num pesadelo sem fim. Sou apenas um fantoche e já não me sinto mais a pessoa que coordena a minha cabeça ou as minhas emoções. Mas será que algum dia tive completo controlo sobre elas? As vezes é bom saber que alguém se importa com as tristeza de um velho como eu. Mas o que quer que aconteça ela estará eternamente longe de mim. Eu não posso sobreviver sem ela. Ela quem me mantinha respirando. Por favor, diga que ela vai voltar. Não deixe que ela me deixe ela significa muito. Mas se Ele leva-la, eu serei um nada. Prometo protegê-la, salvá-la. Como deveriam ter feito por mim. Mas não o fizeram. Eu não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Estou disposto a morrer para tê-la de volta em meus braços.”

Ao terminar de falar o velho esperou alguma resposta, algum amparo do jovem que viera consolá-lo. Mas ali já não havia mais ninguém, a quanto tempo? Ninguém saberia dizer, mais uma vez o velho recolheu suas mãos sobre o rosto e voltou a chorar.