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Talvez a citação mais usada por 10 entre 10 filósofos deva remeter a Descartes, “penso, logo existo”. Somos seres humanos, e como tal, processamos e raciocinamos nossas ações e nos baseamos fortemente nos pensamentos, seja para através deles buscar ter um senso sobre si mesmo ou para analisar informações sobre outros e entender um pouco mais o mundo. Essa tendência habitual de se basear em pensamentos cria uma crença na separação. Quanto mais nos baseamos no pensamento, mais sentimos que cada pensamento aponta para uma coisa separada. O sofrimento, a busca e o conflito nascem dessa crença na separação. O sofrimento pessoal nasce porque nos identificamos com o fluxo de pensamento em nossas mentes. Se uma onda de pensamentos for negativa, experimentamos sofrimento emocional e mental. Mesmo quando parece ser positiva, pode haver sofrimento pois tentamos defender ou proteger essa boa imagem quando nos sentimos ameaçados de alguma maneira. Esse sistema de crença é também a causa da busca. Quando acreditamos que somos separados, pensamos nós mesmos como estórias separadas existindo no tempo.

O passado parece incompleto, e só o futuro parece poder trazer a plenitude. Isso resultando em uma busca constante e acelerada em direção ao futuro. Nós perseguimos repetidamente a felicidade futura, mas parece que nunca encontramos contentamento de maneira permanente. Nesse senso de separação, vemos a nós mesmos frequentemente como deficientes em algo; “Não sou bom o suficiente”, “Não estou lá ainda”, “Sou incapaz de ser amado”, “Sou inadequado”, “Sou inseguro.” Essa percepção de deficiência impele a busca de tentar controla-la ou a mudar outras pessoas e situações, numa tentativa de consertar essa deficiência. Enquanto nos identificarmos com essa estória de deficiência, não poderemos encontrar contentamento estável, paz, amor e plenitude.

Esse sistema de crenças é também a razão pela qual nós experimentamos o conflito. A separação nos faz sentir desconectados das outras pessoas e da própria vida; há uma percepção de separação especial. Quando nos sentimos como objetos separados, acreditamos que esses outros objetos (incluindo as pessoas) tem o poder de nos ameaçar ou reduzir quem somos. Isso nos impele a querer estarmos certos e a tornar os outros errados. Para cada certo, há um errado; e nós clamamos sermos o certo e assim fazemos nosso oponente (quem quer que seja que esteja em conflito conosco) errado. Ao estarmos certos, nos construímos. Isso protege o frágil centro do ego de se sentir diminuído ou ameaçado. Infelizmente, esse é exatamente o motivo pela qual nos colocamos em conflito.

 Vivemos numa sociedade guiada pelas “conexões sociais”, mas ainda assim nos sentimos muito sozinhos, mesmo se estamos rodeados por pessoas. Há um vácuo dentro de nós e não nos sentimos confortáveis com esse tipo de vácuo, então tentamos preenche-lo através da conexão com outras pessoas. Acreditamos que quando nos conectamos com outras pessoas o sentimento de solidão vai desaparecer. A tecnologia nos provê vários mecanismos para nos conectarmos, para nos mantermos conectados, e nós nos mantemos conectados mas mesmo assim continuamos a nos sentir sozinhos. Nós checamos emails várias vezes ao dia, mandamos emails várias vezes ao dia, publicamos mensagens diversas vezes no dia, queremos compartilhar o que vemos, o que comemos e estamos ocupados, ficamos ocupados o dia todo para nos conectarmos, mas isso não ajuda, não reduz a quantidade de solidão em nós.

Nossos relacionamentos não estão bem. Não estamos em um bom relacionamento com nosso(a) parceiro(a), com nosso irmão, com nossa irmã, com nossos pais, com nossa sociedade. Nos sentimentos muito sozinhos, e temos usado a tecnologia para tentar dissipar esse sentimento de  solidão. Nós andamos e não sabemos para aonde, estamos lá mas não prestamos atenção no que há lá, estamos vivos mas não sabemos viver. Estamos nos perdendo dentro de nós mesmos, não somos nós mesmos. E isso está acontecendo quase que o dia inteiro. Por isso o ato de pensar é um ato de revolução. Quando você pensa você corta esse estado de estar se perdendo e de não ser você mesmo, e quando você pensa e raciocina você se conecta consigo mesmo. Você não precisa de um smartphone ou um computador pra fazer isso. Você só precisa se sentar, respirar e conscientemente pensar. E em apenas alguns segundos (se você não estiver dormindo) você se conecta consigo mesmo e você sabe o que está se passando. O que está se passando no seu corpo, o que está se passando nos seus sentimentos, nas suas emoções, o que está se passando com suas percepções e assim por diante.

 A vida não pode ser desenvolvida através de diminuir o próximo para se sentir superior, não pode ser admirada através dos objetos pessoais se possui, não pode ser vivida impulsionando pensamentos negativos, não pode ser aproveitada não se conhecendo. Amizades nos tornam melhores por conversarmos e através da conversa evoluirmos. Não podemos fragmentar a vida em categorias esperando que elas se encaixem em diversos compartimentos, sentimentos são unidades complexas e indivisíveis, amamos e odiamos, sofremos e prosperamos e não há uma escala que indique o quanto de cada sentimento podemos sentir. Essa é a vida, penso, logo existo. Respiro logo vivo. Erro, logo aprendo. Como disse Mick Jagger e Keith Richards: “You can’t always get what you want – but if you try sometimes well you might find / you get what you need” (Você não pode sempre ter o que quer – mas se tentar, algumas vezes você pode ter o que precisa).

Créditos a Scott Kiloby e Thich Nhat Hanh.