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A origem de um pensamento passa diretamente por um questionamento. O que é pensar?

É sabido que pensamos diariamente, mas o quanto disso fazemos conscientemente?

Dias atrás por brincadeira perguntei a dois amigos, como você sabe que a cor laranja é laranja sendo que eu não sei como é o laranja que você vê?

Mas afinal, o que é laranja?

Se você chegou até aqui achando que eu iria decodificar a cor laranja que eu enxergo ou teorizar sobre o que é a laranja, desculpa desanimar vocês, não me sinto apto a fazer uma dissertação tão longa e filosófica quanto esta.

A questão aqui é como uma simples pergunta e com tanta ou mesma importância que uma ideia, pode ser uma pergunta tão complicada de ser respondida.

Partindo de um problema psicológico, tive uma ideia. O que nos faz pensar? E o que nos atrai o pensar? Por que frequentamos 4 a 5 anos de uma faculdade nos focando em algo único e nos fechando para outros assuntos ao nosso redor? O fato é que no final de mais um dia ficamos mais velhos e acabamos tornando nossas vidas em cotidianos banais.

Sem criar comparativos, mas acredito que em um momento alguém te disse para parar e pensar, e eu comigo pensei, “quem esta pessoa pensa que eu sou para me dizer como eu devo pensar? Tenho minhas faculdades mentais (ainda que um pouco deturpadas) em dia, leio, escrevo, converso, estudo, logo sei o que é pensar.”

Mas a questão aqui se encontra não no insulto de que nós não pensamos, mas sim na capacidade de escolher sobre o que pensar.

Se me permitir fazer um teste com você querido leitor, gostaria que usasse a sua liberdade de escolha e por alguns instantes pensasse sobre como está o tempo agora? Não sobre o vento ou a chuva ou o sol, mas a atmosfera ao seu redor, como está o seu ambiente neste momento?

Numa analise você pode ter se dado conta das pessoas ao seu redor, do humor e o comportamento delas, ou como estas pessoas com as características físicas (não estou falando de estética ou desempenho atlético) similares as suas atuam e constroem diferentes tipos de raciocínios e pensamentos baseado unicamente em suas experiências.

Muitos de nós se dizem tolerantes e sem preconceitos, mas até aonde vai o nosso poder de auto conhecimento e interpretação dos sentimentos pelo próximo? Até aonde a nossa verdade esbarra na verdade daquele que está ao nosso lado? Somos todos vasos transportando água diariamente, alguns de nos deixam esta água transbordar e não se importam aonde ou em quem irá cair, outros se equilibram mas mantêm a água num estado em que não se transborda mas também não se esvazia. Sábio é aquele que sabe que jogar água dentro da banheira é desperdício, mas que ao invés disto tenta distribuir aquilo que tem.

Mas como construímos um sentido de distribuição não se tem nenhuma base de consciência feita para saber como dosar?

Não se constrói, pelo contrário, se cria o oposto de distribuir, possuir.

Nossas interpretações dia após dia se tornam sinônimos de posse, a arrogância nos cega e nos aprisiona numa teia cuja qual o prisioneiro não percebe que está preso. Não nos importamos em derramar água sem a importância em quem vamos atingir.

Logo, parar e pensar não se torna uma lição de moral, mas sim parte de um propósito. Pensar no próximo, pensar em nossas arrogâncias e posses e tentar nos manter atentos a não permitir este ato para com o próximo.

Nas ultimas semanas eu tenho aprendido isso da pior maneira, sofrendo por isso. Por isso não gostaria de ver aqueles com quem me preocupo passando pelo mesmo.

Tudo que tenho passado nos últimos meses mostram o quão errado eu estava em achar que o centro do universo se baseava no meu bem estar. Pensava que me preocupava com os outros, mas na verdade estava sendo repulsivo e egoísta.

Pare e pense um pouco, existiu algum momento da sua vida em que você teve a certeza de ser o centro do universo? Nenhuma.

Neste momento existem mais de 7 bilhões de pessoas vivendo e experienciando a vida de diversas formas diferentes. Todos pensamos e sentimos e eu sei o quanto o seu sentimento é real, dolorido e urgente. Mas assim como aquele que está ao seu lado.

Isso não se trata de virtude ou moralidade, mas sim uma nova ótica para se interpretar os pensamentos que ocorrem dentro no nosso ser ou do nosso ego.

Parar e pensar deixa de ser um exercício para se tornar uma atitude de saber como e sobre o que pensar. Tonrando-se assim consciente e cuidadoso para aonde o foco está sendo dirigido e construir um sentido para esta escolha.

Coincidência ou não nossas mentes trabalham numa velocidade muito maior que o compreensível, pensamos agimos, respiramos, caminhamos mas na verdade não estamos atentos a nenhum destes fazeres. Nos submetermos a pensar a razão pela qual estamos fazendo isto é o que nos permite compreender a facilitar os dias.

Tomarei como exemplo o dia-a-dia de um trabalhador ou de um estudante que acabou de se formar e espera levar consigo um leque gigante de ideias para o mercado de trabalho. Ele consegue um trabalho na sua área, trabalha por volta de 8 a 11 horas, no fim do dia está exausto, estressado e sem muita motivação. Morando sozinho você lembra que não tem comida em casa, logo passar no mercado para comprar algum congelado para a janta será o que “facilitará” o seu dia, entra no carro e logo na primeira esquina encontra a avenida engarrafada, o estresse aumenta a pressão sobe. Quando ele finalmente consegue chegar no mercado da esquina de casa encontra este lotado de zumbis, ou melhor, de outros trabalhadores tais quais ele. Perdido entre as prateleiras ele encontra o que veio adquirir para o dia de hoje e quem sabe para o de amanhã.

Na interminável fila, um homem pede para passar a sua frente sem muita explicação, cansado, estressado e com o jarro de água quase derramando, ele permite o homem passar, quando você percebe que o real motivo era que ele apenas estava atrasado para a sessão de cinema.

“Filha da p…” muitos poderiam dizer, mas antes disso, se você pensasse tanto em si quanto no cidadão que passou na sua frente qual o motivo desta arrogância? Se você está parado na fila sem muita pressa, embora esteja estressado e cansado, você não tem mais nenhuma obrigação para com o seu dia, mas caso pense o oposto e fique injuriado, fique, eu já cometi inúmeras vezes estas injurias, mas o fato é que pensar desta forma é a mais fácil e a que não está lhe exigindo nenhuma outra escolha.

Pensar desta forma é deixar agir no modo automático e se acovardar por não pensar de uma forma diferente. É mais fácil seguir a corrente, difícil é nadar contra ela.

Todos no supermercado estão estressados e exaustos, todos querem chegar em suas residências tomar o merecido banho e descansar para mais um dia de rotina infindável.

Não encare isso como uma aula de moral e cívica, é apenas um exemplo de um dia comum de pessoas comuns como eu e você. É apenas uma forma de como devemos parar e pensar, agir sem pensar é agir de forma automática, é deixar a água cair e não se importar com isso.

Parar e pensar pode te tornar consciente de se permitir escolher, oferecer um sorriso para um desconhecido pode melhorar o dia dele(a), sabe-se lá se ele(a) está com câncer, se ele(a) terminou com a namorada(o) e está sentindo muito a falta dela. Vá compreender o que aconteceu com esta pessoa.

Se assim como eu costumava a fazer e escolher agir de forma automática, sem se importar, muito provável que você se feche a novas possibilidades. Mas se escolher parar e pensar, e prestar a atenção, talvez você possa a vir encontrar outras opções.

No final das contas é você e apenas você que irá encontrar aquilo que é real e verdadeiro.

Ser verdadeiro consigo, é ser livre e ser livre é ser atento, cuidadoso, disciplinado e de ser verdadeiramente capaz de se preocupar com o próximo.

Isso é liberdade.

É estar ciente de fazer o bem não esperando o bem em retorno.

No final, isso é a laranja, independente de como se vê ela, saber que ela está lá para ser comida ou bebida é saber que a vida acontece independente do quão doce ou amarga ela possa ser.