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Gravidade (Gravity, 2013)

Diretor: Alfonso Cuarón

Roteiro: Alfonso Cuarón e Jonás Cuarón

Elenco: Sandra Bullock e George Clooney

Poucas vezes um filme evocou tantos sentimentos e uma vontade de escrever sobre, quanto Gravidade (Gravity, 2013). Num paradoxo que viemos em experiências cinematográficas hoje em dia, ir ao cinema (principalmente na época do inverno na América do Sul, verão na América do Norte) significa assistir a filme com explosões e efeitos visuais de tirar o fôlego, mas são poucos capazes de fazer crer que um homem pode voar, pois estes efeitos se tornaram tão rotineiros e comuns. Mas ao assistir Gravidade, não consigo encontrar palavras para descrever a experiência que obtive ao assistir um filme tão belo, hipnótico, poético, tenso e por vezes aterrorizante. Em nossa grandiosidade como homens e mulheres, olhamos para o céu como se buscássemos explicações, entendimentos ou apenas o simples conforto do espaço servir como expansão de nossas mentes. Mas quando a visão se torna inversa e observamos a Terra e toda a beleza deste pequeno ponto azul, podemos refletir o quão pequeno e vulnerável nós somos.

O excelente diretor Alfonso Cuarón (E Tua Mãe Também (2001), Filhos da Esperança (2006)), dirigindo o roteiro escrito por ele e seu filho Jonás Cuarón, nos levam a uma ficção/drama ao cosmos que nos remete a mais terrível e tensa viagem ao espaço, com contextos filosóficos. Logo de inicio, somos remetidos a um longo plano sequência que vislumbra a terra, linda e iluminada contrapondo a vastidão do nada que compreende o espaço, um rádio inicia a comunicação entre os astronautas e Houston. Lentamente, quase de forma imperceptível, uma nave espacial estacionada próximo a um satélite e este sendo reparando por uma comissão de astronautas. O que nos remete em alguns detalhes ao clássico 2001: Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968) ao assustador ritmo semi-slow motion da vida antigravidade.

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Conforme ouvimos o veterano astronauta Matt Kowalsky (George Clooney) falar com sua tripulação de forma calma e sossegada, vemos a inexperiência e ansiedade da engenheira médica Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) ao efetuar os reparos no satélite. Mas logo a sensação de paz e calma toma contornos de suspense e terror quando um boletim vindo de Huston, informa a explosão de um satélite soviético havia liberado detritos que estavam indo de encontro aos astronautas, forçando=os a abortar a missão e retornar a nave espacial, o que acaba por ser tarde demais. A chuva de detritos os atinge com força suficiente para destruir a nave e deixar os astronautas perdidos no espaço.

Se possível resumir Gravidade em um tema, seria a dificuldades encontradas por uma mulher sozinha lutando por sobrevivência em meio ao nada. Não há alienígenas ou força divina atuando. E ai mora o brilhantismo e a mágica da direção de Cuarón, de nos conduzir e nos fazer parte de uma experiência tão claustrofóbica (ironicamente falando se contarmos pela quantidade de espaço ao redor) e aterradora que faz qualquer Jason ou Freddy Krueger perder o controle do esfíncter. Presa no espaço, Dra. Stone tem de enfrentar inúmeros perigos – incêndio, depleção de oxigênio, falta de combustível, além da tempestade de detritos – com o mais simples dos objetivos, voltar para casa.

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O nível de tensão é beira as dores musculares. Cuarón trabalha a tensão e o impacto das cenas chaves com uma mistura surpreendente entre o objetivo e o subjetivo, além do extremo contraste entre a paz no silencioso vazio do espaço com a abrupta aparição da nuvem de destroços. Isso se deve, também, ao brilhante trabalho na trilha sonora composta por Steven Price, que de forma insidiosa trabalha com o silêncio total, para a ação de extrema violência. O balanço entre os contrastes se notam a todo instante, de um lado a beleza reluzente do planeta terra, do outro as profundezas da escuridão infinita, do temor do homem para o terror do nada, do calor do sol para a frieza do eterno limbo.

Estas posições fornecem a estrutura sensorial para a narrativa que com exceção dos primeiros minutos de calma e tranquilidade do filme, Dra. Stone brinca de com as implacáveis leis de Murphy indo de uma situação ruim para uma pior. E dentre todas as candidatas ao papel (Angelina Jolie, Natalie Portman, Scarlett Johansson) coube a Sandra Bullock assumir o personagem e, sinceramente, dentre as candidatas, não vejo outra atriz mais adequada que ela para a empreitada. Seu desempenho aqui é de longe uma de suas melhores atuações ao cinema, superando facilmente o papel que lhe rendeu o Oscar no supervalorizado Um Sonho Possível (The Blind Side, 2009). George Clooney, faz o que se espera dele, com sua característica voz calma e serena, ele traz um misto de Buzz Lightyear com Danny Ocean, ele acalenta e tranquiliza a personagem de Bullock nos momentos de necessidade além de ser a fonte de sabedoria em outros momentos.

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A sensibilidade e o poema visual que é Gravidade demonstra a grandeza e a profundidade do ser humano, que embora em pedaços em fragmentos, ainda possui a capacidade de se reerguer e lutar independente da fragilidade irritante que nos acomete. Podemos facilmente nos isolar no silêncio, podemos querer calar nossos passados e as amarguras do dia-a-dia, mas vai de cada um de nós encontrar as forças necessárias para se erguer, independente das ameaças que nos circundam. No plano geral somos feitos de poeira estelar e água, somos praticamente nada perante o cosmos, mas não importa o quão longe nós possamos explorar tanto nos céus quanto na terra, a maior viagem humana é aquela que acontece dentro de nós mesmos.

Que filme fantástico.