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DONNIE DARKO (Donnie Darko)

EUA, 2001 – 113 min.

Direção: Richard Kelly

Roteiro: Richard Kelly

Elenco: Jake Gyllenhaal, Jena Malone, Mary McDonnell, Holmes Osborne, Katharine Ross, James Duval, Maggie Gyllenhaal, Drew Barrymore, Patrick Swayze, Noah Wyle

Em outubro deste ano Donnie Darko (Donnie Darko, 2001) completa 10 anos, neste meio tempo o filme atingiu um status de cult entre os amantes do cinema. O filme de estréia do diretor e roteirista Richard Kelly, aponta que o mundo  terminou em 1988. Quanto mais eu penso sobre mais sentido ele faz, todos os eventos da nossa vida pública e privada, desde então, são apenas epifanias, os sonhos de nossa consciência morrem enquanto nós estamos no meio dos escombros desta chamada civilização. É uma visão estranha e reconfortante, o filme levanta muitas questões sobre filosofia, vida e destino pré-determinado. Donnie é um garoto incomum que vive em uma casa normal e que, basicamente, é um dos temas subjacentes: A Normalidade. O filme apresenta Darko em uma cidade onde reina a conformidade.Todos os professores aderem a um cronograma rigoroso e curvam-se como fiéis perante um palestrante de auto-ajuda chamado Jim Cunningham, e imediatamente rejeitam a diferença e originalidade, como é representado em muitas cenas do filme, uma das quais mostra uma menina chinesa realizando uma apresentação durante um concurso de calouros onde a platéia ri e zomba, mas quando um número de dança simples e estereotipado surge, uma sensação de felicidades descontrolada surge. Enquanto isso, um professor é demitido da escola por instituir diferentes métodos de ensino em sua classe. Donnie Darko é o novo que as pessoas da cidade temem.

Donnie Darko é, entre muitas outras coisas, um filme sobre a tragédia e perda, sobre um menino lutando uma batalha perdida contra a loucura e as trevas, Kelly é muito mais otimista sobre a vida humana do que sugere. De acordo com este emocionante e psicótico conto, de viagem no tempo e romance adolescente, o mundo acabou em 1988, mas apenas a título provisório ou temporário. Nós estamos presos neste mundo cuja condição atual parece estranhamente ligados à perturbação, através do reflexo no espelho. Para este que vos escreve este é um dos melhores filmes da última década.

Donnie Darko é realizado com muita técnica, em suas idéias e referências, mas é fundamentalmente um filme graciosamente trabalhado sobre os seres humanos. Na sua essência é um retrato de uma família americana – danificada, sim, mas não pior que muitas outras – apresentada mais por compaixão e amor do que cinismo. Kelly sugeriu que Donnie Darko é a história de Holden Caulfield filtrado através da consciência paranóica de Philip K. Dick, mas onde quer que hajam falhas, este filme é mais emotivo e menos egoísta que as fontes possam sugerir.

Donnie (Jake Gyllenhaal) tem dezesseis anos e um dos poucos alunos brilhantes na privada escola católica de Middlesex. Donnie não é um virtuoso introspectivo e idiota como Max Fischer de Rushmore, ele usa seu intelecto ligeiramente, envolvendo seu professor de ciências (Noah Wyle), em uma rápida e esforçada conversa sobre física durante o qual o professor parece animado, se um pouco perplexo, com a perspectiva de manter uma conversa particular com um de seus próprios alunos. Donnie tem o ar de uma criança que passou muito tempo recluso com sua própria leitura e pensamentos. Além de receber visões noturnas de “Frank”, um homem vestido numa fantasia de coelho e coberto com uma máscara metálica.

A história, que se desdobra no Outono de 1988 (como aprendemos de modo economicamente na primeira linha de diálogo: “Vote em Dukakis”), envolvendo viagens no tempo, universos tangentes – além do usual jazz metafísico. O espirito oitentista figura em destaque na trilha sonora com Echo and the Bunnymen, Tears for Fears, Joy Division e Duran Duran. Kelly pega o humor depressivo, mas inflexível de uma nação após oito anos do governo Reagan, confrontados com a escolha de dois candidatos presidenciais ricamente inspirados. A fantasia sobre o caminho de volta, as crianças na escola na época pós-Vietnã uma geração totalmente imersa em cinismo sobre o governo.

Sua irmã Elizabeth (irmã de Jake Gyllenhaal na vida real, Maggie Gyllenhaal) anuncia a sua intenção de voto para Michael Dukakis, em parte, para irritar seus pais conservadores (Mary McDonnell e Holmes Osborne). Sua irmã mais nova, Samantha (Daveigh Chase), é membro de um grupo de dança chamado Sparkle Motion, presidida pela Sra. Farmer (Beth Grant), uma histérica e controladora no modo da mãe de Jon Benet. A ironia e sátira é evidente, mas o controle de Kelly é maravilhosamente modulado por toda parte, a coreografia de dança montada pela Sparkle Motion, quando finalmente é apresentada, é parte de uma montagem magistral, tanto cômica quanto comovente.

Frank, o coelho espectral, aparece para salvar a vida de Donnie tirando-o da cama em uma noite quando a casa da família Darko é parcialmente destruída por uma misteriosa calamidade. (Melhor eu não dizer exatamente o que acontece.) Mesmo quando Donnie conhece Gretchen (Jena Malone), uma garota com um passado igualmente danificado, cuja desconfiança não pode ocultar a intensidade de seus sentimentos por ele, seu companheiro imaginário o conduz para um comportamento cada vez mais destrutivo. Donnie também começa a acreditar que pode ver a uma curta distância o futuro das pessoas, sob a forma emergente de ectoplasma originado do peito das pessoas (inclusive o próprio) que indicam o que eles estão prestes a fazer.

Muitos dos elementos aqui são referencias do meio dos anos 80 com filmes de John Hughes, ou para De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985), uma influência que Kelly reconhece especificamente em uma conversa entre Donnie e seu professor de ciências. Um pouco à maneira de Darren Aronofsky (de Pi (Pi, 1998) e Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) ou Wes Anderson (Três é Demais (Rushmore, 1998)), Kelly tem esses elementos de narrativa e amplifica em algo transcendente, pessoal e profundamente estranho.

Quando Donnie Darko ecoa ou cita cenas de A Hora do Peasdelo (Nightmare on Elm Street, 1984) ou O Segredo do Abismo (The Abyss, 1989), não vejo como forma de homenagem ao filme, mas sim um reconhecimento sobre o que as imagens representam para o cinema. Kelly mistura a sátira, uma peça de época e a trágica história de amor em uma espécie de arquétipo cultural que se estende desde Beleza Americana (American Beauty, 1999) e As Virgens Suicidas (The Virgin Suicides, 1999) e voltando à Peggy Sue – Seu Passado a Espera (Peggy Sue Got Married, 1986) e outros. Mas poucos cineastas de qualquer época tem colocado de forma tão sensível a arte pop do cinema de forma tão espontânea, ou combinaram-nas com tal assombro como neste conto de perda e redenção.

Donnie está irritado e alienado, mas ele não é niilista auto-centrado. Ele ama sua namorada e sua família, e busca junto do coelho-demônio Frank (uma versão sinistra ao companheiro de Jimmy Stewart em Harvey?), explorar as implicações filosóficas de viagem no tempo, dedicando a encontrar uma efeito moral e metafísico no universo. (Embora a religião é raramente mencionado, ele freqüenta uma escola católica e a teologia nunca fica muito abaixo da superfície.) No universo de Kelly, inclusive as questões mais terríveis – todo ser vivo morre sozinho? – estão sujeitos a uma reformulação maravilhosa.

Kelly conduz seu elenco com sensibilidade. Apesar de todo o filme girar em torno de Jake Gyllenhaal, os atores coadjuvantes, que vão desde Jena Malone (me apaixonei por ela ao assitir este filme), Drew Barrymore (que também é produtora executiva do filme), como uma professora simpática além da veterana atriz Katharine Ross (A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, 1967) e Butch Cassidy (Butch Cassidy and the Sundance Kid, 1969), como terapeuta de Donnie, estão bem em seus papéis. Patrick Swayze é agradável como palestrante e guru de auto-ajuda, mas sua sub-trama é muito complexa e pouco explorada. Menção especial a Mary McDonnell (Battlestar Galactica), que transforma o mais corriqueiro dos papéis femininos, a mãe suburbana, de moral e emoção em um desempenho intenso e discreto.

Quando Donnie Darko foi filmado, Richard Kelly tinha apenas 26, mas enquanto Donnie Darko é um filme de um jovem audacioso e ousado, não é um filme feito por um garoto. Kelly não tem vergonha de suas influências: Em um momento crucial na história, Donnie e Gretchen vão para uma sessão dupla: A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981) e A Última Tentação de Cristo (The Last Temptaion of Christ, 1988). Gretchen adormece e Frank aparece, Donnie lhe pergunta: “Por que você está vestindo essa roupa  estúpida de coelho?” A resposta Frank é arrepiante: “Por que você está vestindo terno estúpido de homem?“) entre todos os filmes referenciados neste filme, este diálogo não é algo acidental. Donnie Darko reforça a idéia de que os jovens são capazes de mudar o mundo, mesmo que através de um suspense narrativo de tirar o fôlego e guiado por uma seriedade moral. A música que encerra o filme “Mad World” interpretada por Gary Jules num cover da banda Tears for Fears praticamente sintetiza o filme.

“Eu acho isso meio cômico. Eu acho isso meio triste. Os sonhos nos quais estou morrendo são os melhores que eu já tive. Acho difícil te dizer porque acho difícil de entender. Quando as pessoas andam em círculos é um mundo muito louco”.